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Arquivos da categoria 'Arrecadação'

I really can’t stay
I’ve got to go away
This evening has been
So very nice
(…)

Começou ontem, algures, porque isto com o espaço não convém ser muito preciso, e ainda faz sentido. Continua hoje, aqui.
Por um Natal cada vez mais quente. Sempre com Dean Martin.

é uma relação demasiado empenhada para se lhe chamar adultério

Philip Roth – O Animal Moribundo

Ponte 25 de Abril

Se não sabem, deviam saber, os gatos são muito boa companhia. Se não sabem, ficam a saber, os gatos podem passar o dia sozinhos, nem se queixam, que à noite, como se todo o abandono fosse natural, enrolam-se nas nossas pernas, pedem mimos e dão “pequenas lambidelas de amor”**. Os gatos são uns tristes e uns panhonhas***. Eu adoro gatos, os dos outros; e os outros estão desamparados, deprimidos ou simplesmente a precisar de companhia. Eu, em momentos desses, que todos os temos, por uma questão de princípio, nunca me virei para os gatos. O princípio é o da não resignação. Alguém que leva um gato para casa porque se sente só resigna-se perante a solidão. Há excepções, claro. Há uns tempos, durante algum tempo, que isto com o tempo não convém ser muito preciso, andei a sair com uma rapariga linda de morrer, e isto convém precisar, até porque ela lê o blogue, que, é bom que acreditem, duas semanas depois de me conhecer, decidiu levar um gato para casa. Nesse momento percebi que há quem seja solitário, mas também há quem traga solidão. Hoje em dia continuamos a sair juntos, mas nunca mais a vi.

* e é quase tudo mentira.
** não fui eu que pensei isto. hei-de negar até à morte. ouvi… alguém disse e eu escrevi.
*** isto sim, já posso ter sido eu.

A Casa das Enguias continua igual a si mesma. É um restaurante enorme, barulhento, sempre cheio, e com enguias fritas, e ensopado de enguias e arroz de berbigão. Não é preciso dizer muito mais. Está sempre cheio. Estava da última vez que lá fui, há mais de dez anos, e estava ontem.

Há em Sesimbra uma tasca que o deixou de ser, mas que continua com peixe muito bom. A tasca que, repito, já não o é, chama-se Lobo do Mar, fica junto ao porto de abrigo e não tem menu. O cardápio para o prato principal é o peixe fresco em exposição; para a sobremesa é diferente. Ide até lá. Pelo peixe, vale a pena. Parece ter uma caldeirada deliciosa, mas que é preciso encomendar.

O processo de catalogar as experiências para mais tarde as poder recordar não colabora. Por exemplo, adoro favas. Na última vez que fui comer favas fiquei dois dias a fazer-lhes a digestão. Estes dois dias são fundamentais para que eu dificilmente esqueça a experiência. O problema do sushi é que nunca chega sequer ao pequeno almoço do dia seguinte. Aliás, eu acho que emagreço a cada sashimi que como.
Eu gosto de sushi, mas não me lembrava. Só isso.

Há restaurantes de sushi que têm biombos para os seus clientes. A meu ver, e porque ninguém precisa de privacidade para comer sushi, ou é para levar namorada ou um saco com o farnel. Hoje vou descobrir.

Nas últimas semanas vi-me forçado, face à gula que carregava, a visitar dois dos restaurante que trazia na carteira há alguns meses como “preciso de ir lá ver como é que é”. O Ramiro, muito bom, faz competição directa ao Rodinhas em Sesimbra. Hei-de lá voltar quando não estiver em Sesimbra ou quando me apetecer uns camarões que, pelo aspecto, são cozinhados como em Moçambique. Duas garrafas de vinho não chegaram para estragar o marisco que comemos, o que é de louvar. O Sete Mares, que estava referenciado como tendo o melhor leitão de Lisboa, confirmou tudo e ainda mais alguma coisa. O leitão é mesmo o melhor de Lisboa, mesmo sendo o único que conheço, é óptimo, e o queijo da serra uma maravilha. Não tinha leite creme, uma chatice. Fica a nota que só lá hei-de voltar para comer leitão. Domingo, para memória futura, para a de domingo, não me posso esquecer, serão enguias ali para os lados do Montijo. Hoje é sushi. Eu tenho uma boa relação com o shushi. Eu não digo mal dele e ele não se me apresenta como alternativa gastronómica com demasiada frequência. Toleramo-nos. Não é que não goste de sushi, gosto, mas gosto mais quando há alternativas. Por exemplo, sushi com pataniscas de bacalhau. Porque não? Sempre que como pataniscas de bacalhau, por muito maladrinho que esteja o arroz de feijão, sinto sempre a falta algo. Talvez seja esse o segredo. Pernil assado no forno com sashimi? Favas guisadas com entrecosto e tempura? (…) Já que esta é a minha primeira a última crítica gastronómica, não posso terminar sem uma palavra de apreço para esse grande vulto da gastronomia portuguesa que é a lampreia. Nunca comi, fica mais esta nota, e 2008 está-lhe reservado. Até lá, hoje é sushi. Adoro. Isso e croquetes.

Ryszard Kapuscinski
Ryszard Kapucinski

a lista

Talvez só eu repare que não tenho a lista dos blogues que leio, dos blogues que gosto de ler, dos blogues que li ou dos blogues de quem conheço. Durante algum tempo, a lista foi dos blogues das pessoas que conheço, depois alargada aos blogues de todos os que me visitavam ou comentavam e, mais tarde, uma amálgama de nomes sem sentido, na qual nunca me revi. Uma lista em pantanas. Perdi-lhe o rasto e só hoje lhe senti a falta. Leio este blogue. Fica o aviso. A lista, um dia, há-de voltar.

Há uma altura da vida em que o que faz a força são os números. No recreio da escola, por exemplo, ninguém ameaça alguém com o amigo. Isto é informação básica com a qual já nascemos. Alguém que não meta os amigos, todos, e ainda alguns do bairro amarelo, “porque que eu conheço lá não sei quem”, e da escola do Pragal e mais não sei o quê, que a malta de almada é que é má, está lixado. Eu, que nunca tive números muito grandes para mostrar, tive de optar por passar mais vezes despercebido. Nunca ameacei ninguém, nem me escondi, atrás dos meus amigos. A verdade é que eu tenho poucos amigos, mas há um que é irmão. É assim que tem acontecido. É mais novo, é mais baixo e foi quem me impediu, mais do que uma vez, de me meter em sarilhos.

Entretanto crescemos e os amigos, enquanto barreira protectora ou ameaça temerosa, deixam de fazer sentido. A todos nós, uns mais tarde, talvez, mas acredito que a todos nós chega esse momento. Esse é o glorioso momento dos advogados e, tal como no recreio, alguém que não meta os advogados, todos, e ainda mais alguns do escritório x “porque eu conheço lá não sei quem”, e da escola do Pragal e mais não sei o quê, que a malta dos advogados de Almada (Almada dá sempre jeito nas ameaças) é que é má, está lixado. Eu, que continuo sem grandes números para mostrar, continuo a passar despercebido. Para o futuro há-de ficar que conheço poucos advogados, mas há um que é irmão.

A vida continua até percebermos que nunca foi uma questão de números.

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