uma questão de números
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Há uma altura da vida em que o que faz a força são os números. No recreio da escola, por exemplo, ninguém ameaça alguém com o amigo. Isto é informação básica com a qual já nascemos. Alguém que não meta os amigos, todos, e ainda alguns do bairro amarelo, “porque que eu conheço lá não sei quem”, e da escola do Pragal e mais não sei o quê, que a malta de almada é que é má, está lixado. Eu, que nunca tive números muito grandes para mostrar, tive de optar por passar mais vezes despercebido. Nunca ameacei ninguém, nem me escondi, atrás dos meus amigos. A verdade é que eu tenho poucos amigos, mas há um que é irmão. É assim que tem acontecido. É mais novo, é mais baixo e foi quem me impediu, mais do que uma vez, de me meter em sarilhos.
Entretanto crescemos e os amigos, enquanto barreira protectora ou ameaça temerosa, deixam de fazer sentido. A todos nós, uns mais tarde, talvez, mas acredito que a todos nós chega esse momento. Esse é o glorioso momento dos advogados e, tal como no recreio, alguém que não meta os advogados, todos, e ainda mais alguns do escritório x “porque eu conheço lá não sei quem”, e da escola do Pragal e mais não sei o quê, que a malta dos advogados de Almada (Almada dá sempre jeito nas ameaças) é que é má, está lixado. Eu, que continuo sem grandes números para mostrar, continuo a passar despercebido. Para o futuro há-de ficar que conheço poucos advogados, mas há um que é irmão.
A vida continua até percebermos que nunca foi uma questão de números.