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Parece que hoje a Fnac está em festa. Desde os dias dos muitos posts a dizer mal da Fnac por causa dos 10% e do cartão cliente que eu fiquei com azia e também particularmente atento ao que de muito bom a Fnac tem. A azia passou, mas eu que não sou de vir para aqui dizer nem bem nem mal passei a dizer bem de algumas coisas (sem link) e também da Fnac.

Ontem comprei o mais recente livro do Jamie Oliver e a Fnac ofereceu-me outro. O Jamie é o Herberto Helder da cozinha.

Ninguém me convence que “tamboril embrulhado em folhas de bananeiras com gengibre, coentros, malaguetas e leite de coco” não é senão poesia.

(Lembras-te disto?)

If there were ever a time to dare,
To make a difference,
To embark on something worth doing,
It is now.
Not for any grand cause, necessarily,
But for something that tugs at your heart,
Something that’s your aspiration,
Something that’s your dream.

You owe it to yourself, to make your days here count.
Have fun.
Dig deep.
Stretch.

DREAM BIG

Know, though, things worth doing seldom come easy.
There will be good days,
And there will be times when you want to turn around,
Pick it up,
And call it quits.
These times tell you that you are pushing yourself,
That you are not afraid to learn by trying.

PERSIST

Because with an idea,
Determination,
And the right tools,
You can do great things.
Let your instincts,
Your intellect,
And your heart guide you.

TRUST

Believe in the incredible power of the human mind.
Of doing something that makes a difference.
Of working hard,
Of laughing and hoping,
Of lazy afternoons,
Of lasting friends,
Of all the things that will cross your path this year.

The start of something new,
Brings the hope of something great.
Anything is possible.
There is only one you,
And you will pass this way only once.
Do it right.

DREAM BIG

Foi por causa de notícias destas que decidi comprar, na Fnac (herege!) online (ah!), o último livro de Herberto Helder. O preço de editor está nos 20 euros e a Fnac (herege!) online (ah!) vende por 18 euros. 10% de desconto, contas assim por alto, e nem sequer é preciso cartão de cliente. Paguei 3.5 euros pelo transporte (Ah! Afinal…!), mas nem sequer precisei de sair da secretária para que o livro que comprei ontem me chegasse hoje às mãos (ah!). Acresce ainda a oferta que a Fnac (herege!) online (ah!) faz: “Doze Nós Numa Corda”, um livro cujo preço de editor anda à volta precisamente dos 11 euros. Contas feitas, 21.5 euros, dois livros que valem, segundo o editor, 31 euros, e (e só isto me faria odiar a Fnac) ainda aqui estou, na secretária, a trabalhar.

Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria
dos astros

Herberto Helder

(Mandei vir outra leva para ficar com o “Ouolof” e um presente que, provavelmente, já não iria conseguir comprar no Natal)

e sobre o que fica.

IMG_2431
Foto: Berlim [TP]

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade

Because what I want most is permanence,
The long unwinding and continuous flow
Of subterranean rivers out of sense,
That nourish arid landscapes with their blue– Poetry, prayer, or call it what you choose That frees the complicated act of will And makes the whole world both intense and still– I set my mind to artful work and craft, I set my heart on friendship, hard and fast Against the wild inflaming wink of chance And all sensations opend in a glance.
Oh blue Atlantis where the sailors dream Their girls under the waves and in the foam– I move another course. I’ll not look down.

Because what I most want is permanence,
What I do best is bury fire now,
To bank the blaze within, and out of sense, Where hidden fires and rivers burn and flow, Create a world that is still and intense.
I come to you with only the straight gaze.
These are not hours of fire but years of praise, The glass full to the brim, completely full, But held in balance so no drop can spill.

QUE ISTO SEJA ESQUECIDO

Que isto seja esquecido como uma flor, ou como
fogo de áureo gorjeio que ninguém já relembre…
É bom amigo, o tempo, que nos traz a velhice.
que isto seja esquecido e para todo o sempre.

E se alguém perguntar, dize – foi esquecido
há muito, muito tempo,
como uma flor, um fogo, uma surda pegada
numa neve esquecida há um tempo imenso…

Sara Teasdale (1884 – 1933)
E.U.A.
Trad.: Cecília Meireles

Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Inger Christensen (n. 1935)
Dinamarca
Trad.: José Alberto Oliveira

Estudo

Através da janela
mando
a negra razão
falar com a
paisagem.

Ernst Meister (1911-1979)
Alemanha
Trad.: João Barrento

o amor é um cão do inferno

Aqui estou

bêbado outra vez às 3 da manhã no fim da minha 2ª garrafa
de vinho, escrevi entre doze a 15 páginas de
poesia
um velho
enlouquecido pelo corpo de jovens raparigas no
fim da vida
fígado parado
rins a caminho
pâncreas estafado
tensão arterial baixa

enquanto que o medo dos anos passados
ri por entre os meus dedos
nenhuma mulher viverá comigo
nenhuma Florence Nightingale para ver
comigo o programa do Johnny Carson

se tiver um ataque cardíaco ficarei aqui durante seis
dias, os meus três gatos esfomeados a rasgarem a carne
dos meus cotovelos, pulsos, cabeça

a rádio a passar música clássica…

prometi a mim mesmo nunca escrever poesia de velho
mas este é engraçado, bem, desculpável, por-
que já deixei há muito de falar de mim e ainda
há muito para dizer
aqui às 3 da manhã tiro esta folha da
máquina de escrever
encho outro copo e
coloco outra
faço amor com esta nova testemunha

talvez tenha sorte
outra vez

primeiro para
mim

depois
para ti.

para quem vem à procura de poesia

Notas:
1. série anteriormente publicada aqui
2. Quem está a ler através de RSS pode vir até cá só para experimentar o novo plugin para as imagens

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

Por estes dias ouve-se Laura Fygi e entrego-me depois de me ter perdido com Herberto Helder. Se, pelo menos, houvesse degraus…

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