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Deixo de escrever quando deixa de fazer sentido. Nada de novo.

Este fim-de-semana fui ver Peer Gynt. Fui duas vezes ao cinema (Mio fratello è figlio unico e Wanted). Vi The National e Bob Dylan, mas não tive paciência para ir ver Neil Young que, segundo escrevem no Público, foi o melhor concerto do festival. Azar. No próximo sábado Leonard Cohen. Depois praia.

Costumo dizer que a eternidade mede-se no presente. Isto quer dizer que, embora não saiba o dia de amanhã, sei que amanhã o meu dia é contigo.

Pessoas normais, pensei. A beleza não surge na face das pessoas normais. É preciso alguém que, na escala, se encontre nooutlier para que o conceito surja e nos prenda. A repulsa não é beleza, mas também não surje em pessoas normais. Ali estava eu, pessoa normal, no meio de pessoas normais, a fazer o que as pessoas normais fazem no meio de pessoas normais: passar despercebido.

Não é fácil imaginar a perfeição, mas é impossível não a ver ao nos cruzarmos com ela. Para as pessoas normais olhamos, mas não as vemos. A perfeição vemos sem precisar de olhar, olhamos e deixamos de a ver. Eu deixei. Tropeçar nos degraus nesse momento fez-me abrir os olhos para a realidade. Temos de nos distanciar da beleza.

Há segregação total entre homens e mulheres em nove dos dez dias de meditação. Eu devo ser a razão para isso. A concentração é difícil, por vezes impossível, e manter os olhos fechados por mais de dois minutos facilmente se torna numa eternidade. O tempo esvai-se na eternidade e tudo perde o seu sentido. Abro os olhos. Somos cinquenta e só eu de olhos abertos. Atento no rosto de meditação de alguns e penso que deve ser esse o segredo do amor. Temos de gostar desse rosto, do rosto de meditação da outra pessoa. Só há um. Podemos ter vários sorrisos, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, …, podemos ter os mesmos vários olhares, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, …, mas só temos um rosto de meditação. Não há alegria, tristeza, frustração, medo ou paixão que afecte esse semblante. É o que de mais puro tem a nossa face. Ali era fácil e a ninguém precisava de pedir: da-me a tua melhor cara de meditação. A melhor, como se não soubesse.

Ela tinha o melhor rosto de meditação. Minto. Ela tinha o melhor corpo de meditação. Eu tinha dores. Facilmente aprendemos que a desconcentração não facilita uma hora em adhitthana, sem poder mexer pernas, mãos e sem abrir os olhos. Passei os dias sem lhe poder falar. Nove dias num esforço, muitas vezes inglório, para me concentrar. Uma eternidade a fazer planos. No décimo dia, pensava. Só isto. No décimo dia. Falar.

Ao nono dia ela não apareceu e no décimo ninguém lhe falou. Anicca. Tudo é impermanente.

Ao meu filho, um dia que o tenha, não hei-de oferecer um baby blog, mas sim um blog de babes e educá-lo para que se nunca vier a compreender os mistérios da beleza feminina os possa, pelo menos, suportar.

* lê-se ánitcha

Não há datas nem horas neste novo modelo. É a procura da eternidade através indefinição temporal.

O que escrevi ontem, já em Abril tinha colocado no blogue. Aos poucos vou-me tornando no velho do jardim que repete as mesmas histórias às mesmas pessoas. Este é o meu jardim e, na falta de outras certezas, não é velho quem quer. Que os 31 anos não enganem ninguém.

Na teoria de relatividade não há um tempo absoluto único; em vez disso cada pessoa tem a sua própria medida de tempo, que depende do sítio onde está e da forma como se move. (Stephen Hawking)

Quem comentou a nova imagem diz que passou a vir cá na esperança de encontrar outra. Este eternidade não permitirá que seja para sempre, mas garante que a mudança não é para já.

Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Inger Christensen (n. 1935)
Dinamarca
Trad.: José Alberto Oliveira

Aprendi mais na última semana do que nos últimos seis meses. Seis meses é uma vida. A última semana aproxima-se da eternidade.

O mais importante?

Só se vive uma vez, mas a eternidade subsiste.

Não creio que alguma vez venha a ter um baby blogue. Nove meses, na blogosfera, é uma eternidade.

raro era o dia em que o Fred não me dizia, a propósito de um qualquer acontecimento mais estranho, que esta merda dava um post.
E dava, na maior parte das vezes, mas não deu e, provavelmente, nunca irá dar. Alguns ficaram e hão-de aparecer enquanto que os outros ficam perdidos, ou guardados, no submundo das memórias. São posts perdidos no tempo.
Nem todo o momento é eterno. Nem toda a eternidade se mede no presente.

Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Inger Christensen
Dinamarca
Trad.: José Alberto Oliveira

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