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Aqui por baixo o vinho verde tinto não pega. Lá em cima pode custar a pegar, mas depois ninguém o aguenta.
Vinhão, Borraçal e Padeiro.
A saber, o Padeiro dá o pico. Ou pique. Ou o Borraçal. Não houve unanimidade.
Bebeu-se tudo, ninguém se queixou, mas a última estava mais agulha.
Para o ano há mais.

o amor é um cão do inferno

Aqui estou

bêbado outra vez às 3 da manhã no fim da minha 2ª garrafa
de vinho, escrevi entre doze a 15 páginas de
poesia
um velho
enlouquecido pelo corpo de jovens raparigas no
fim da vida
fígado parado
rins a caminho
pâncreas estafado
tensão arterial baixa

enquanto que o medo dos anos passados
ri por entre os meus dedos
nenhuma mulher viverá comigo
nenhuma Florence Nightingale para ver
comigo o programa do Johnny Carson

se tiver um ataque cardíaco ficarei aqui durante seis
dias, os meus três gatos esfomeados a rasgarem a carne
dos meus cotovelos, pulsos, cabeça

a rádio a passar música clássica…

prometi a mim mesmo nunca escrever poesia de velho
mas este é engraçado, bem, desculpável, por-
que já deixei há muito de falar de mim e ainda
há muito para dizer
aqui às 3 da manhã tiro esta folha da
máquina de escrever
encho outro copo e
coloco outra
faço amor com esta nova testemunha

talvez tenha sorte
outra vez

primeiro para
mim

depois
para ti.

A reportagem que faltava.

Declaração de interesses: 99% do que sei sobre vinhos aprendi com eles, poucas horas depois de ter aterrado, em Dezembro, em Portugal, foi lá que fui beber um copo de vinho (força de expressão, na verdade foram quatro ou cinco), somos amigos e eles são espectaculares. Apareçam, já que eu não posso.

Típico de Borgonha, Pinot Noir, só, vinho de 2003, ano extraordinariamente quente em Borgonha. Os vinhos desse ano foram quase ao estilo do sul. Um vinho mais musculado do que o normal em termos de álcool, de matéria. Como foi um ano muito quente tem uma carne muito interessante na boca, mastiga-se um pouco, e aromaticamente é um vinho onde não há uma matéria extremamente forte mas que tem persistência.

Hoje é o jantar de despedida da princesa cá do burgo. Num passado mais recente, tenho-me cruzado com várias princesas. Onde quer que vá, há sempre uma, todos têm a sua princesa. É impossível caracterizar as princesas num modelo único. Felizmente. As princesas mudam, como a paisagem, e todas são diferentes. A minha, por exemplo, não a descobri com uma ervilha debaixo dos colchões, mas sentado junto ao mar a beber um copo de vinho tinto e a rir. A minha, que é minha, felizmente nunca precisou de um príncipe, nunca precisou de mim para o ser. Um pouco como a paisagem onde não preciso de estar, que não precisa de me pertencer, para ser minha. Hoje é o jantar de despedida da princesa, mas não da minha. Não preciso de me repetir.

Existe alguma situação mais sedutora inebriante do que aquela em que uma mulher nos convida para beber um copo de vinho?

(Esta, na verdade, não é uma dúvida. Passámos às verdades absolutas.)

O rascunho mais antigo, “conversa de almoço” data de 23 de Dezembro de 2005. O mais recente é de hoje, a propósito deste concerto. Entre os dois ficam as palavras que escolhi diferir, as que nunca verão a luz do dia e outras que nunca cheguei a escrever. Não contam. O que deixamos de escrever nunca ficará para a história. O mesmo não acontece com o que deixamos de viver, mas, aí, a história é outra.

Your Drafts: burning spear, Joana, rita e teresinha, inato, Alemão, mudar o mundo, cabeça de cartaz, Dúvida .31, cor, Drafts, é muito mais fácil dizer ex-namorada do que ex-mulher, Cartas de Amor, Cartas de Amor .2, Porque há sempre alguém que pergunta…, Um bom vinho nunca fará esquecer um mau beijo. , , consultorio de crianças, livros nossos, amigos, morte, complexo de édipo, Dúvida .28, “Ela não é uma gaja qualquer”, Casamento 2, outros caminhos, Planos adiados, amizades, Planos adiados, Compra partilhada, Spiderman, segunda opinião, Polónia, Paris, vinhos, mito relacoes, sevandija, viagens, sem história (poema – não colocar online), political description, sabe como as colegas são, Five Minutes Of Everything, lembras-te?, verdade .3, verdade .2, verdade, ondas sonoras .1 the doors, ondas sonoras .1 elvis, um post sobre nada [ou outra coisa totalmente diferente]*, politica, ondas sonoras .2 bob dylan, SMS, poema, Conversa de almoço .

vintage

A idade torna-nos mais exigentes. Queremos beber menos, mas melhor. Demoramos mais tempo com o vinho no copo. Ninguém tem pressa quando tem o que quer. Continuamos a beijar, mas só repetimos se for bom. Beijamos de olhos abertos na esperança de que essa imagem nos faça sentir, um dia em que o vinho seja mau e já não tenhamos o gosto de um bom beijo na boca, o mesmo arrepio na espinha. Um bom beijo acaba sempre cedo demais.

A idade, normalmente, permite-nos beber menos, e melhor. Há tantos vinhos bons, que até vendem. Um bom beijo é mais difícil de encontrar e, talvez por isso, não sei, sai sempre mais caro que um bom vinho.

Um mau beijo consegue ser pior que um mau vinho.

Um mau vinho pode sempre ser utilizado para fazer uma boa sangria e a sangria, por muito má que seja, tem sempre clientes.

Um mau beijo é difícil ser reciclado.

vindimas

nos vinhos há tempo para colheitas tardias

nas relações é sempre tarde demais

Sr. Agente: Boa noite
Bloguista: Boa noite Sr. Agente.
Sr. Agente: (imperceptível) … documentos.
Bloguista: Hmmm… pois. Não vai ser fácil. – digo-lhe com um sorriso nos lábios ao mesmo tempo em que abro o porta luvas. Os documentos do carro estão lá. Desses documentos eu sei. – Aqui estão os do carro. Os meus… deixe-me ir ver ao porta bagagens.

Nesta altura já eu sabia que não ia ser fácil. A única dúvida era se seria impossível. Cinco minutos a procurar no porta bagagens e encontro o passaporte. Mais cinco minutos…

Sr. Agente: Posso ir passar o auto de (imperceptível) apresentar documentos (imperceptível) oito dias?
Bloguista: Por mim…
Sr. Agente: São 30 euros
Bloguista: 30 euros?!?! Espere aí… a carta de condução tem de estar por aqui!
Sr. Agente: Já estamos aqui há uns 15 minutos
Bloguista: Sr. Agente, eu não tenho pressa…
Sr. Agente: Tenho eu. Há mais carros para… (imperceptível)
Bloguista: Mas a sua pressa não me dá multa, pois não? (sorriso)
Sr. Agente: (…)
Bloguista: Deixe lá ver só mais um bocado…(sorriso)

Até hoje a polícia mandou-me parar três vezes. Na sexta feira passada, depois de cinco horas de curso de vinhos e de uma imperial no lounge, foi a terceira.

Sr. Agente: Bebeu alguma coisa?
Bloguista: Pois… mas foi pouco. (sorriso)
Sr. Agente: (sorriso… foleiro) Vamos lá ver isso…

Sempre que a polícia me mandou parar, e fiz o teste do álcool, fui multado. Na primeira vez porque tinha um médio fundido. Na sexta-feira porque me esqueci da carta de condução em casa. Agradeci, sempre, a multa.

Bloguista: Obrigado e boa noite. Até para a semana.

Acordo. Enquanto espero a força necessária para me arrastar até ao banho, descubro A Ideia de Europa de George Steiner. Decido começar pelo fim. O mesmo será dizer que começo por ler George Steiner. Não fui ao debate, mas o livro chegou-me às mãos e não foi pelo prefácio. Começo pelo fim e

Passo a manhã no café. No Flore, por exemplo, ali mesmo ao lado do Deux Magots. Por lá, num dos dois, onde quer que estejamos, ainda se vive um pouco de Sartre, Hemingway, Simone de Beauvoir ou Camus. Steiner escreve que

A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo.

Há uma semana estava no Flore. Hoje regressei. Quando fui a Paris levei esse objectivo. Sem ter lido Steiner tinha o desejo simples de passar uma tarde sentado na esplanada de um qualquer café do Quartier Latin. Ou perto. Estive quase a regressar sem o objectivo cumprido. Percebi que não tinha destino.

vai ao café flore, disse-me a Sissi. o albert cossery, escritor que venero, vive lá perto. Pois deve viver. Ia jurar que nos cruzámos no Flore. Parece que o ouvi dizer

Si je n’ai rien à dire, alors je n’écris pas

Disse mais. Não consta que tenha um blogue.

Bebo mais um copo de vinho enquanto procuro os olhos de quem passa. Hoje janto no Ângelus.

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