Ninguém é imune à terceira pessoa do singular.
o que não esqueci
Tags: felicidade, Livros, memória, pessoal
Esqueço-me de tudo. Esqueço-me das chaves, esqueço-me do telemóvel, esqueço-me dos nomes das pessoas e das caras também. Esqueço-me dos livros.
Os livros que não esqueci. Aí está algo para o qual nunca poderia ser convidado.
A situação é tão grave que ando sempre com um livro atrás de mim. Hoje é “A Estrada” de Cormac McCarthy (outro que há-de dar um filme), mas, porque me hei-de esquecer dele em algum lado, tal como me esqueci anteriormente de tantos outros, há muito que fui largando parte da minha biblioteca nos locais por onde passo regularmente. Caso me esqueça do livro de Cormac McCarthy em casa, no escritório, na minha secretária, está “O Livro dos Seres Imaginários” de Jorge Luis Borges. Se me esquecer do livro de Cormac McCarthy no escritório, em casa, na minha mesa de cabeceira, tenho “Na Praia de Chesil” de Ian McEwan. No carro tenho um outro livro, mas já não me recordo de qual. Há umas semanas era um de Adrian Mole, mas esse, neste momento, está esquecido em casa. O de José Saramago, um dos Cadernos de Lanzarote, que também andou no carro, não está esquecido, só não sei onde está. Esta estratégia faz com que eu tenha sempre algo para ler, mas, não resolve um outro problema: esqueço muito rapidamente tudo o que leio.
Nada disto tem piada e é fonte de graves problemas. Há quem diga que pode ser a fonte da felicidade. Eu até poderia confirmar, mas não sei, já devo ter esquecido o que isso era.
Diz-se que os homens aprendem com os erros. Nem todos. Só os que não esquecem.
(6.03.2008 00:36)
De inicio não percebem. A lucidez dos moribundos é, ate nos próprios, difícil de aceitar. Ate que percebem que o mundo, naquele instante, poderia acabar, que noutra altura nunca seria tão perfeito. Acaba, simplesmente acaba. Não sabes bem quando, mas talvez aos dois minutos de musica. No fim do mundo nunca se ouve o acorde final.
E acabou. O mundo como o conheço teve ontem um fim. O meu mundo, que nunca houve outro, já não é só meu. O meu mundo, que nunca foi demais, é ainda maior. O meu mundo é nosso e nós nunca o seremos. O meu mundo acabou.
o presente
Tags: pessoal
Esqueço-me regularmente do que quero escrever sem nunca deixar de o querer. Sempre no presente. Tudo no presente. O querer. O esquecer. O escrever.
Darjeeling Tea
Tags: George Steiner, pessoal
Sobre o «orientalismo», a terceira esfera de irracionalidade de George Steiner que surje no livro “Nostalgia do Absoluto”.
Os hippies dirigem-se para Katmandu. Os devotos escalpados do Hare Krishna, com as suas túnicas cor de açafrão, saltitam pela Broadway ou por Picadilly, agitando pandeiretas. A matrona e o empresário contemplam os seus corpos deliquescentes ao longo da lúgubre duração da aula de ioga. O pau de incenso que arde lentamente sob o póster da mandala, o sinal de paz tibetano, o tapete de orações num apartamentozinho em Santa Monica ou Hammersmith. Na universidade de Bacon e Newton, de Darwin e Bertrand Russel, milhares de estudantes juntam-se aos pés calçados de saldálias do Maharishi. Meditamos; meditamos transcendentalmente; procuramos o Nirvana em transes suburbanos. Adolescentes sebosos descem até nós via Air India, dizem ser o Caminho e a Luz, oferecem clichés inefáveis sobre os poderes curativos do Amor, e espalham pétalas com dedos gorduchos. Enchemos o estádio para ouvir a revelação que trazem. Vem-se a saber que eram saltimbancos manhosos, e especuladores monetários. Tal não reduz o brilho à Luz e ao Tao. «Que som faz uma só mão a bater palmas?», pergunta o mestre Zen. «A estrela é o Lótus; ommani padme…», resmoneiam lamas em viagem turística. Tanka e guru, haiku e dharma; todas estas frioleiras iridescentes entraram no nosso discurso.
Não são tanto estas superficialidades que importam; é provável que passem, como passou a coqueluche da chinoiseries na marcenaria do século XVIII. O problema é a idealização implícita de valores estranhos, ou mesmo contrários, à tradição ocidental. Passividade contra força de vontade; uma teosofia de estatismo ou eterno retorno contra uma teodiceia de progresso histórico; a monotonia concentrada, chegando mesmo ao vazio, da meditação e do transe meditativo, opondo-se à reflexão lógica e analítica; ascetismo contra prodigalidade pessoal e expressiva; contemplação versus acção; um erotismo polimorfo, ao mesmo tempo sensual e abnegado, em contraste com a sexualidade aquisitiva, mas também sacrificial, da herança judaico-helénica: são estes os termos da dialéctica. O universitário que, enquanto manipula um rosário budista ou medita num enigma Zen, vai entrando num atordoamento melancólico, e o executivo fatigado que se apressa em direcção à sua aula de meditação ou prelecção sobre o karma, procuram ambos ingerir quantidades variadas de elementos, mais ou menos na moda e prontos a consumir, oriundos de culturas, rituais e disciplina filosóficas que, na realidade, lhes são extremamente remotos, díspares, e de difícil acesso. Mas estão também, e isto é mais importante, a articular uma crítica consciente ou instintiva dos seus próprios valores, da sua identidade histórica. A viagem a Benares ou a Darjeeling é uma tentativa de escaparmos à sombra da nossa própria condição.
O salgado bem tratado
Tags: pessoal
Alguns salgados que, segundo outros, são os melhores do mundo
Croquete: Gambrinus. Esqueçam o resto. Final do dia, princípio da noite, pela noite dentro, não importa muito, sentem-se ao balcão e atirem-se aos croquetes. Podem, nao é crime, dar-lhe um toque de mostarda. (O prego também é o melhor do mundo e um dos melhores de Lisboa)
(e a partir daqui não conheço nada)
Diz o FM que a melhor empada está em Mem Martins, no Pratinho. (Não sei. Tentámos passar por lá hoje, mas, por ser o dia de folga do pessoal, acabámos na Piriquita comer travesseiros.)
O M., também arrisca uns quantos.
Sacolinha em cascais. um bom folhado de chaves, o folhado de salsicha também é uma aposta segura
O rissol de berbigão da minha avó, mas esse não está à venda.
A empada de vitela do quiosque 1890 nas amoreiras ( e o mesmo da confeitaria Nacional na praça da figueira)
(parece faltar um rissol que se venda, a chamuça, o pastel de bacalhau,… Agradece-se quaisquer contribuições de salgados que considerem dignos de registo. Eu tento sacar uns rissóis de berbigão para distribuir.)
Passo a explicar
Tags: pessoal
Há quem pense, eu sei que há, que se chega a determinada altura da vida e há que ter respostas. Chega de perguntas, venham as respostas, olá certezas. (…) E sem darmos por isso, a determinada altura da vida, com um “isto é assim”, o pessoal passa a explicar.
Eu gosto do conceito, mas vi-me forçado a adaptá-lo. Ao contrário dos que se iluminam a determinada altura da vida, eu tenho por hábito iluminar-me a determinada altura da noite (não todas as noites). (…) Passo, por essa razão, a explicar o seguinte (coisa séria):
Determinados momentos não poderiam ser mais perfeitos (#1). A própria graduação da perfeição é uma parvoíce (#2). Ponto. Há o bom, há o melhor, há o melhor (#3) que bom, pode haver perfeito, mas mais que perfeito só o verbo (#4). O Princípio (por vezes, do fim).
ligações
Tags: Moçambique, pessoal
No momento da verdade nem sempre tomamos as melhores decisões. Falo de mim, de alguns momentos da verdade, mas recordo um em que, à distância de uma vida, acredito ter seguido o melhor caminho.
Poderia ter sido advogado. Não fui e não me parece que precise de psicanálise para perceber as razões. A precisar as razões serão outras. Fui para gestão e o facto de até há pouco tempo ponderar tirar outro curso superior, curso de direito, juntamente com a admiração que tenho por muitos dos que praticam advocacia, não belisca em nada a certeza de que segui o rumo certo.
Alterei a lista de blogues na barra lateral para que incluísse os blogues que verdadeiramente leio. Estão lá os blogues de quem conheço pessoalmente e os outros, os que não conheço, mas que também leio avidamente sempre que há novas entradas. É uma lista que não é estática, vai tendo novas entradas e terá certamente saídas. Não que os blogues tenham mudado para melhor ou pior. Fui eu que mudei.
Destaco os blogues dos ICEPs e dos outros amigos que estão em Moçambique, pois é com eles (e mais uns muitos que não têm blogue ou eu não sei qual é) que vejo a bola e vou estrada fora, qualquer que ela seja estrada. (Miguel, André, Patrícia, Frederico F., Renato, Frederico A., Carla, JP)
Dos “outros”, hoje destaco A Revolta das Palavras, Da desilusão à insurreição geral, o blogue de José António Barreiros, porque qualquer que seja a estrada é importante o rumo certo, porque torna volúveis algumas das certezas que tenho.
Bloglines é a uma das melhores ferramentas para quem lê blogues. Revoluciona a forma de estar na blogoesfera.
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Entretanto, para o fim de semana, Sam Cook com Don’t Know Much About History.
um sentido…
Tags: Moçambique, peixe, pessoal
Alguns dos melhores momentos que passei junto dos meus amigos foram em casamentos “do pessoal”. Aquele pessoal amigo. Não sei se estão a ver. O pessoal da universidade. Os amigos de infância. Esse pessoal.
Admito que a minha experiência em casamentos dos outros é muito positiva. A pior altura é o dia seguinte. Acordo sempre com a sensação de que o casamento foi meu e que já comecei a levar traulitadas na cabeça. Sublinho traulitadas. Ainda vivo na ideia de que o casamento é uma grande dor de cabeça.
Acho bem que o pessoal case. Quem casa terá as suas razões e eu não tenho nada a ver com isso, mas, por vezes, fico com a sensação de que casam pela simples razão de que encontraram a mulher/homem da sua vida. Falta de argumentos, não?! Se eu casasse de cada vez que encontro a mulher da minha vida passava a vida nas Maldivas. Pois… Maldivas. Acho bem que o pessoal passe a lua-de-mel nas Maldivas. Também, não tenho nada a ver com isso, não fui eu que casei, mas… sempre que oiço Maldivas, sabe-me sempre a… Maldivas. Sabe sempre a pouco. É giro, eu sei, mar azul, peixes bonitos, pessoas felizes, acabadinhas de casar, mar azul… transpira-se amor, mas continua insonso.
Num dos casamentos “do pessoal” fiquei na mesma mesa de um casal que também se ia unir através santo matrimónio, duas ou três semanas depois. Iam para o México, alugar um “four by four”, como se diz em Moçambique. Só levavam o bilhete de avião e os três últimos dias reservados numa estância junto à praia. Foi a primeira vez que quis casar, mas rapidamente percebi que era um preço elevado demais para quem só queria ir ao México.
Desde então, não casei nem fui ao México, mas comecei a pensar nas Maldivas…
– Não há música?
– Só na próxima sexta. Tivemos umas filmagens que atrasou isto
– Então…
– Aqui perto é no campo das cebolas. Mas aquilo é um bocado pesado. Pessoal de chelas. Um bocado “xunga”. Todas as noites acaba à porrada.
por outra razão ficámos em Alfama, jantámos as melhores sardinhas da época (Clube Desportivo Adicense) e descobrimos, depois de muitos degraus, um palco com música ao vivo e onde, informaram-nos, a Marcha iria chegar. A saber, Alfama ganhou os últimos dois anos das marchas. Ali ficámos. Nós e os locals, porque, segundo dizem, xungas são sempre os outros.
Chegou a marcha e vimos a tia Cinha a dar o seu pezino de dança. Também nós demos um. Às duas da manhã a festa acaba antes de tempo, porque o bairro desentendeu-se. Não consta que tivesse sido por algum piropo à tia. A confusão alastrou-se e nós descemos até ao campo das cebolas, ainda a tempo de “dar de beber à dor” e de ouvir o pessoal de chelas a cantar o fado. Tudo como deve ser.
polícias e ladrões
Tags: Moçambique, pessoal
– e em termos de segurança. isto está melhor ou pior
– acho que esta melhor. (pausa) mas as vezes aparecem uns policias oportunistas…
A polícia, por vezes, é pior que os ladrões. Pessoalmente, não tenho mais razão de queixa de uns do que de outros. Por ladrões já fui assaltado e por polícias já fui intimidado. Ambos estavam armados. Contudo, nenhuma dessas experiências prejudicou a imagem que tenho de Maputo e de Moçambique. Quem nunca brincou aos polícias e ladrões? É muito bom estar de volta.



