Darjeeling Tea
Tags: George Steiner, pessoal
Sobre o «orientalismo», a terceira esfera de irracionalidade de George Steiner que surje no livro “Nostalgia do Absoluto”.
Os hippies dirigem-se para Katmandu. Os devotos escalpados do Hare Krishna, com as suas túnicas cor de açafrão, saltitam pela Broadway ou por Picadilly, agitando pandeiretas. A matrona e o empresário contemplam os seus corpos deliquescentes ao longo da lúgubre duração da aula de ioga. O pau de incenso que arde lentamente sob o póster da mandala, o sinal de paz tibetano, o tapete de orações num apartamentozinho em Santa Monica ou Hammersmith. Na universidade de Bacon e Newton, de Darwin e Bertrand Russel, milhares de estudantes juntam-se aos pés calçados de saldálias do Maharishi. Meditamos; meditamos transcendentalmente; procuramos o Nirvana em transes suburbanos. Adolescentes sebosos descem até nós via Air India, dizem ser o Caminho e a Luz, oferecem clichés inefáveis sobre os poderes curativos do Amor, e espalham pétalas com dedos gorduchos. Enchemos o estádio para ouvir a revelação que trazem. Vem-se a saber que eram saltimbancos manhosos, e especuladores monetários. Tal não reduz o brilho à Luz e ao Tao. «Que som faz uma só mão a bater palmas?», pergunta o mestre Zen. «A estrela é o Lótus; ommani padme…», resmoneiam lamas em viagem turística. Tanka e guru, haiku e dharma; todas estas frioleiras iridescentes entraram no nosso discurso.
Não são tanto estas superficialidades que importam; é provável que passem, como passou a coqueluche da chinoiseries na marcenaria do século XVIII. O problema é a idealização implícita de valores estranhos, ou mesmo contrários, à tradição ocidental. Passividade contra força de vontade; uma teosofia de estatismo ou eterno retorno contra uma teodiceia de progresso histórico; a monotonia concentrada, chegando mesmo ao vazio, da meditação e do transe meditativo, opondo-se à reflexão lógica e analítica; ascetismo contra prodigalidade pessoal e expressiva; contemplação versus acção; um erotismo polimorfo, ao mesmo tempo sensual e abnegado, em contraste com a sexualidade aquisitiva, mas também sacrificial, da herança judaico-helénica: são estes os termos da dialéctica. O universitário que, enquanto manipula um rosário budista ou medita num enigma Zen, vai entrando num atordoamento melancólico, e o executivo fatigado que se apressa em direcção à sua aula de meditação ou prelecção sobre o karma, procuram ambos ingerir quantidades variadas de elementos, mais ou menos na moda e prontos a consumir, oriundos de culturas, rituais e disciplina filosóficas que, na realidade, lhes são extremamente remotos, díspares, e de difícil acesso. Mas estão também, e isto é mais importante, a articular uma crítica consciente ou instintiva dos seus próprios valores, da sua identidade histórica. A viagem a Benares ou a Darjeeling é uma tentativa de escaparmos à sombra da nossa própria condição.
“darjeeling tea”? … humpft!
sabia que irias gostar