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pisar Alento e beber Quinta do Mouro.

Há uns anos, o meu médico de família disse-me aquilo que eu já sabia: isto em termos de glóbulos vermelhos podia estar melhor, mas não está mau. Acrescentou, e isto eu não sabia, que o único problema seria com esforços prolongados, teria mais dificuldade, mas, como não era atleta de alta competição, não havia problema.
– mas posso correr uma maratona, ou não?
– (há sempre outro) mas… porque é que haveria que querer fazer isso?

Sorri. Não tinha nada mais a acrescentar.

Desde muito cedo que tenho problemas com a comida. O maior problema nem é gostar de quase tudo, mas sim, inclusivamente, comer do que não gosto. Hoje em dia, por exemplo, se entro num restaurante cuja ementa inclui arroz de cabidela, dobrada com arroz branco e cozido à portuguesa, demoro mais tempo a decidir do que a comer. Se não estiver sozinho, o processo de tomada de decisão tem de incluir quem estiver à mesa para que, dessa forma, consiga reunir todos os pratos à distância de um braço, o meu. Ter de optar por comida é pior do que… é pior do que… enfim, comida e mulheres, já sabemos, andam sempre de mão dada. A balança não equilibra para nenhum dos lados. Das duas uma, ou não como por causa da indecisão ou como tudo o que me aparece à frente. Por isso é que estou gordo que nem um (*) e os meus últimos preservativos ficaram fora de prazo. (Aposto que sabem como os preservativos duram mais do que a comida. E nem sequer precisam de estar no frigorífico.)

(*) seleccionar qualquer uma das opções do post anterior

Para efeitos de um próximo post, o google diz que se pode ser

gordo que nem um… texugo (ou techugo)
gordo que nem um… xibo (ou shibo ou chibo. há de tudo)
gordo que nem um… hipopótamo
gordo que nem um… pão caseiro
gordo que nem um… pão com chouriço
gordo que nem um… leitão
gordo que nem um… elefante
gordo que nem um… porco antes da matança
gordo que nem um… batoque
gordo que nem um… pote
gordo que nem um… bucho
gordo que nem um… cardeal
gordo que nem um… boto
gordo que nem um… boi
gordo que nem um… burro (sem ofensa pró jerico)

e cada um veste o barrete que mais lhe convier.

Nota: Apercebi-me que condicionei a busca e que (1) escaparam pérolas como gordo que nem uma rotunda, baleia, bola, lontra (…) e ainda (2) que não há gordo que nem uma sardinha. É pena. Se há animal que se quer gordo é a sardinha.

Where the wind never stops - Glacier National Park

O ser humano é capaz de se habituar a tudo. Habituamo-nos a pessoas, lugares, cheiros e, se há quem consiga comer Vegemite, estou quase certo que nos habituamos a sabores. Podemos não gostar, mas deixa de custar. É um pouco como deixar de viver para passar a sobreviver. Vai-se andando…

Sobre o «orientalismo», a terceira esfera de irracionalidade de George Steiner que surje no livro “Nostalgia do Absoluto”.

George Steiner - Nostalgia do AbsolutoOs hippies dirigem-se para Katmandu. Os devotos escalpados do Hare Krishna, com as suas túnicas cor de açafrão, saltitam pela Broadway ou por Picadilly, agitando pandeiretas. A matrona e o empresário contemplam os seus corpos deliquescentes ao longo da lúgubre duração da aula de ioga. O pau de incenso que arde lentamente sob o póster da mandala, o sinal de paz tibetano, o tapete de orações num apartamentozinho em Santa Monica ou Hammersmith. Na universidade de Bacon e Newton, de Darwin e Bertrand Russel, milhares de estudantes juntam-se aos pés calçados de saldálias do Maharishi. Meditamos; meditamos transcendentalmente; procuramos o Nirvana em transes suburbanos. Adolescentes sebosos descem até nós via Air India, dizem ser o Caminho e a Luz, oferecem clichés inefáveis sobre os poderes curativos do Amor, e espalham pétalas com dedos gorduchos. Enchemos o estádio para ouvir a revelação que trazem. Vem-se a saber que eram saltimbancos manhosos, e especuladores monetários. Tal não reduz o brilho à Luz e ao Tao. «Que som faz uma só mão a bater palmas?», pergunta o mestre Zen. «A estrela é o Lótus; ommani padme…», resmoneiam lamas em viagem turística. Tanka e guru, haiku e dharma; todas estas frioleiras iridescentes entraram no nosso discurso.
Não são tanto estas superficialidades que importam; é provável que passem, como passou a coqueluche da chinoiseries na marcenaria do século XVIII. O problema é a idealização implícita de valores estranhos, ou mesmo contrários, à tradição ocidental. Passividade contra força de vontade; uma teosofia de estatismo ou eterno retorno contra uma teodiceia de progresso histórico; a monotonia concentrada, chegando mesmo ao vazio, da meditação e do transe meditativo, opondo-se à reflexão lógica e analítica; ascetismo contra prodigalidade pessoal e expressiva; contemplação versus acção; um erotismo polimorfo, ao mesmo tempo sensual e abnegado, em contraste com a sexualidade aquisitiva, mas também sacrificial, da herança judaico-helénica: são estes os termos da dialéctica. O universitário que, enquanto manipula um rosário budista ou medita num enigma Zen, vai entrando num atordoamento melancólico, e o executivo fatigado que se apressa em direcção à sua aula de meditação ou prelecção sobre o karma, procuram ambos ingerir quantidades variadas de elementos, mais ou menos na moda e prontos a consumir, oriundos de culturas, rituais e disciplina filosóficas que, na realidade, lhes são extremamente remotos, díspares, e de difícil acesso. Mas estão também, e isto é mais importante, a articular uma crítica consciente ou instintiva dos seus próprios valores, da sua identidade histórica. A viagem a Benares ou a Darjeeling é uma tentativa de escaparmos à sombra da nossa própria condição.

I wish I was a fisherman
tumblin’ on the seas
far away from dry land
and it’s bitter memories
castin’ out my sweet line
with abandonment and love
no ceiling bearin’ down on me
save the starry sky above
with light in my head
with you in my arms…

Impermanence

because things are impermanent, attachment to them is futile, and leads to suffering [wikipedia]

por pouco não me encontrei
na televisão, claro
tudo o resto continua igual

Estou desconfiado que se hoje tivesse alguma coisa de interessante a escrever sobre a visita do Dalai Lama não o escreveria.

Acordar de noite e, ainda antes do Sol nascer, correr por entre os pinheiros do Jamor até começar a transpirar. Descansar. Correr, devagarinho, e descansar. Foram trinta e cinco minutos em que nos cruzámos com vários coelhos bravos e quase tropeçávamos numa cobra com pouco mais de um metro. Claramente, àquela hora, nós é que estávamos a mais.

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