Feed on
Posts
Comments

Anoiteceu
Acho que é tempo de pensar
Mas hoje estou tão fatigado
Outro cigarro
Outra imperial
agora já me sinto melhor
Ah, se eu pudesse arranjar o mundo
(…)
Porra, já está
Aguentei outro dia

(Monólogo de um cidadão frustrado – 1975)

Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil

(Bairro do Amor – 1989)

És a construção do meu poema
És a vastidão da minha voz
És a ilusão, és minha pena

(Dimensão – 1973)

Enfrenta a verdade, sorri na derrota
(…)
Destrói as muralhas que encerram as esperança
(…)
Improvisa a despedida
Que a partida não demora
Como um homem só na vida
Frente ao tempo que o devora

(Poeta – 1973)

Aqui, neste cristal
Há um mundo de certezas
E as dúvidas ficam a ver-nos passar

(Deixem voar este sonho – 1975)

Agarras-te à hora em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão

(com uma viagem na palma da mão – 1975)

Já que a solidão te pode atordoar
E a manhã não vai ficar
Eternamente à tua espera
Improvisa um despertar

(Giselle – 1975)

Eu sou quem sou, tenho as minhas mãos abertas
Sei onde vou, sem algemas nem profetas.

(20 anos – 1973)

Não será sempre assim… Quando não for;
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior

Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando, um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se for trocando:

Se tal acontecer; fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
“Goza a ventura de que já gozei:”

Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.

E.E. Cummings (1894 – 1962)
E.U.A
Trad.: Manuel Bandeira

Há uns anos, naquela altura em que ainda não podemos votar, mas em que já sabemos que a história da cegonha não é bem como nos contaram, juntei-me ao Gonçalo e ao Miguel para formarmos um clube. O nome não vem muito a propósito pela simples razão que, hoje, me parece um bocado redutor dos seus grandiosos propósitos. O grande objectivo inicial era não fazermos nada e passarmos uma tarde no café na conversa, com estilo. Rapidamente metemos o estilo na gaveta e surgiu a ideia de escrevermos um poema, durante a semana, que depois seria lido ao café na sexta-feira, à tarde. Leitura, discussão, gozação.

O Miguel era o pseudo intelectual. Na altura lia mec.
Eu era o pseudo apaixonado. Rimava amor com calor e paixão com melão.
O Gonçalo era o pseudo cómico. É fã do Tom Cruise e só isso dá vontade de rir.

Passámos umas semanas a brincar aos poetas até que a miss carmen também se quis aventurar nestas lides. Numa noite imprópria para consumo a Carmen leu-nos o seu primeiro poema. Momento solene. Já só recordo a pujança do poema. Discussão, gozação e mandámos a carmen ir crescer para o quarto. Foi a última vez dela.

Nós também fomos crescer. O Miguel deixou de ler mec, eu deixei de rimar e o gonçalo deixou de ver o Cocktail. Nesse dia, deixámos de escrever poesia. Continuámos a ir ao café, de vez em quando, ler poemas, cuidadosamente seleccionados, de Bocage.

Amar dentro do peito…

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Nunca sangrei uma lágrima a ver um filme.

Ontem, recordei-me desse facto, tão perto que lá estive. Resisti estoicamente e fui-me deitar. Nestas altura o melhor é fingir que nada aconteceu e que nem esteve para acontecer. Agora, que escrevo acerca de acasos e coincidências, voltei a lembrar-me disso mesmo. Não das lágrimas, que não interessam muito ao tema, mas do filme. O companheiro amigo palhaço, actor principal de uma história de amor, num momento em que o filme atinge um clímax, atira uma pérola ao ar: “When I think of why I make pictures, the reason that I can come up with just seems that I’ve been making my way here. It seems right now that all I’ve ever done in my life is making my way here to you.”

(dois minutos para respirar e voltar a ler a frase)

Estava a brincar em relação ao clímax do filme. Esta foi a parte cómica. Não chorei e só não me ri por um mero acaso, mais um. Palhaçadas destas também eu consigo dizer assim de repente, pensei, sem sequer precisar de trabalhar muito nisso. E digo. Depois rio-me e ela também se ri, diz que gosta da minha poesia barata, ou qualquer coisa do género que não me dignifique muito, e eu insisto com um “verdaaaaadee…. és o meu destino” enquanto lhe roubo mais um beijo.

(isto de ‘roubar um beijo’ foi só para quem duvidava que eu conseguisse dizer ou escrever parolices…)

Nem o homem nem a mulher podem ser insensíveis a palhaçadas lamechas com estilo. A mim falta-me o estilo, mas não sou insensível. Rio-me sempre.

Os acasos e coincidências existem e, permitam-me o desabafo, ainda bem. Não tenho qualquer dúvida que encontrei as pessoas mais interessantes que conheço por um mero acaso. E, permitam-me mais uma vez, também já tive as mais felizes coincidências, mas, independentemente da nossa vida ser fruto do acaso, que é, seja tolo quem julga poder controlar o seu destino. Seja! E só o apaixonado se lembra de atribuir especial valor ao acaso e de agradecer ao destino ter encontrado o seu sonho de vida. O destino não se agradece, vive-se. E acontece. O destino acontece. O sonho, esse grande patife, é um mito.

Seja!

Eu, pelo que me toca, fico satisfeito por nunca ter chorado num filme. Todas as lágrimas são preciosas quando se chora o amor de uma vida. Mesmo aquele que nos atinge por acaso.

Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Inger Christensen
Dinamarca
Trad.: José Alberto Oliveira

« Prev - Next »