Nunca sangrei uma lágrima a ver um filme.
Ontem, recordei-me desse facto, tão perto que lá estive. Resisti estoicamente e fui-me deitar. Nestas altura o melhor é fingir que nada aconteceu e que nem esteve para acontecer. Agora, que escrevo acerca de acasos e coincidências, voltei a lembrar-me disso mesmo. Não das lágrimas, que não interessam muito ao tema, mas do filme. O companheiro amigo palhaço, actor principal de uma história de amor, num momento em que o filme atinge um clímax, atira uma pérola ao ar: “When I think of why I make pictures, the reason that I can come up with just seems that I’ve been making my way here. It seems right now that all I’ve ever done in my life is making my way here to you.”
(dois minutos para respirar e voltar a ler a frase)
Estava a brincar em relação ao clímax do filme. Esta foi a parte cómica. Não chorei e só não me ri por um mero acaso, mais um. Palhaçadas destas também eu consigo dizer assim de repente, pensei, sem sequer precisar de trabalhar muito nisso. E digo. Depois rio-me e ela também se ri, diz que gosta da minha poesia barata, ou qualquer coisa do género que não me dignifique muito, e eu insisto com um “verdaaaaadee…. és o meu destino” enquanto lhe roubo mais um beijo.
(isto de ‘roubar um beijo’ foi só para quem duvidava que eu conseguisse dizer ou escrever parolices…)
Nem o homem nem a mulher podem ser insensíveis a palhaçadas lamechas com estilo. A mim falta-me o estilo, mas não sou insensível. Rio-me sempre.
Os acasos e coincidências existem e, permitam-me o desabafo, ainda bem. Não tenho qualquer dúvida que encontrei as pessoas mais interessantes que conheço por um mero acaso. E, permitam-me mais uma vez, também já tive as mais felizes coincidências, mas, independentemente da nossa vida ser fruto do acaso, que é, seja tolo quem julga poder controlar o seu destino. Seja! E só o apaixonado se lembra de atribuir especial valor ao acaso e de agradecer ao destino ter encontrado o seu sonho de vida. O destino não se agradece, vive-se. E acontece. O destino acontece. O sonho, esse grande patife, é um mito.
Seja!
Eu, pelo que me toca, fico satisfeito por nunca ter chorado num filme. Todas as lágrimas são preciosas quando se chora o amor de uma vida. Mesmo aquele que nos atinge por acaso.