confissões
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Querido Diário,
Eu me confesso.
A revolução no mundo dos diários surgiu com a blogosfera. Os mesmos diários que anteriormente eram protegidos por chave e cadeado são-no agora por heterónimos, nicks, nomes anónimos dos quais nunca vemos a face. Talvez a tenham perdido, penso. Vive-se observado pelo buraco da fechadura. Deixa-se espreitar quem passa sabendo que nunca dá para perceber tudo, sabendo que dá sempre para perceber alguma coisa, sabendo que nunca se perceberá quem é, quem sou, quem somos. Mas continuam a ser diários. Um espaço confessional onde se fala de tudo, de nós, dos nossos problemas, dos nossos mais inconfessáveis, agora cada vez menos, dramas.
Eu não me confesso.
O diário da blogosfera tem outras vantagens. O diário ganhou vida própria. Se anteriormente escrevíamos para as paredes o diário, agora as paredes o diário ganhou vida e responde-nos. Como é bom poder ter alguém a solidarizar-se com os nossos dramas. Como é bom alguém que chega e diz que nos percebe. Como é bom perceber que os nossos dramas não são únicos e que há confissões que não são só nossas. Ahhhh, bendito diário da era digital. Benditas paredes. Esquecem-se, contudo, as paredes que agora respondem, que os esforços de quem se descreve a si próprio não devem ser mais do que aquilo que Montaigne lhes chamou: «ensaios», tentativas [The Creators]. É muito difícil dizer a verdade, muito mais difícil dizer toda a verdade, ainda mais difícil dizer nada mais senão a verdade. A verdade nunca é nossa, nunca nos pertence.
Eu me confesso, diria alguém. Eu não.
Não consta que Rousseau tivesse começado desta forma as suas confissões, não começou, mas confessou-se acossado pela loucura. Será a única forma de nos confessarmos, em momentos de lucidez quando cercados pela loucura? Falo por mim, poucas são as confissões que poderia fazer e que são só minhas. Se algumas fizer, algum dia, serão só essas. Das outras não me compete e não tenho esse direito. Por enquanto. Há quem diga que os direitos adquirem-se.
Não consta que Rousseau tivesse um blogue, não tinha, mas, por não querer escrever para as paredes, ou por qualquer outra razão que não vem muito ao caso, fazia leituras das mesmas. Questiono-me se nos momentos de lucidez ou nos momentos de loucura. As confissões de Rousseau não tinham leitores, tinham ouvintes. As confissões de Rousseau tinham, acima de tudo, uma cara. As confissões de Rousseau tinham a cara de quem as lia. Era a loucura?
Não sou feito como nenhum dos que tenho visto; ouso crer que não sou feito como nenhum dos que existem. Se não valho mais, sou pelo menos diferente. (Jean-Jacques Rousseau – Confissões)
Eu não me confesso.


Bebi em 2001, no dia do Pai, no dia do meu pai, em Novembro, um Barca Velha de 1985. Era uma garrafa com história que tinha sido comprada ainda eu não tinha 18 anos. Naquele dia foi à vida. Assim, sem mais histórias. Do vinho ficaram umas fotos e a sua história só a recordo quando ainda a garrafa estava fechada. Se fosse hoje seria diferente. Hoje a história de um vinho escreve-se enquanto se bebe. Porque a história de um vinho, mesmo a anterior a nós, só existe nos aromas que sentimos e nas sensações que nos provoca. A história do vinho confunde-se com a nossa.
