Duas canas, dois pescadores, cinco horas, cinco peixes. Ou quase. Peixe miúdo, o budião em Sesimbra. Ainda assim, depois do desastre que foi a última tentativa, lá conseguimos, mesmo que eu não tenha pescado nada. Fomos uma equipa. Ele pescava, eu tentava e ao fim de cinco horas ainda não tinha percebido o que é que, para além de mim, estava errado. O peixe detecta-me, só pode. Na rocha ali mesmo ao nosso lado, mais um a gozar comigo. Chegara com com tal descrição que, não fosse eu andar de cabeça à roda com a cadência com que o peixe me levava o isco, não o teria visto no cimo da rocha que se erguia atrás de nós. Atiro em tom de desafio um “Bom dia” com o i prolongado de quem quer conversa, mas ainda não percebeu bem como a começar e ele lá responde com qualquer coisa que não ouvi bem, mas que também nem era preciso. O que eu tinha para dizer valia por si. “Pois, isto não está fácil, hoje!”. Aquele homem talvez não me tenha percebido, porque cinco minutos volvidos e já pescava, com uma cana pouco maior que a minha, um polvo que parecia três. É uma situação que desmotiva. Eu nem sequer sabia que era possível.
Entradas
Cocktail de Legumes em molho de fromage blanc, carvi e citronelle
Sopa de abóbora com ananás e pimenta preta
Camaroes salteados em pistáchio acompanhados de rúcula
Compoté de lapin aux deux olives
Pratos de peixe
Pescada assada com legumes salteados no wok
Atum com beterraba e pimenta
Pratos de carne
Rabo de boi de Rio de Mouro mais dois da Amadora
Borrego com tamaras, romã e amêndoa torrada
Sobremesas
Brochette de maçã em espumante e telha de gengibre
Gelado de pistáchio, pevides e água de rosas
Calhau de chocolate preto
Bolo raínha
Vinhos
(Na espera de meia horita, mais coisa menos coisa)
Blanquette de limoux meio-seco
Grequetto Umbria 2005 branco
Monte Baco Verdejo 2006
Espumante Quinta da Serradinha 2003
(à mesa)
Chassagne-Monrachet Premier Cru les champs gain 2001
Arbois les genevret 2001 tinto
Sancerre 2003 Pinard Branco
Quinta do Mouro 2003
Premières neiges coteaux du layon
– A morbidez é a tua ausência.
Se não o disse, talvez tenha pensado. A morte de todos os dias, de todos os dias em que alguém morre, passa a ser a vida. Chega o momento de enfrentar os fantasmas do passado, do passado em que essa morte, também nossa, nem sequer se atrevia a ser miragem. Tristes encruzilhadas em que seguimos o caminho mais fácil. Mas agora o peso da mentira é maior que a dor da verdade e a verdade, também ela, já morreu.
Está ali um rapaz de dezassete anos. Morreu num desastre de automóvel. Os amigos vêm cá pôr-lhe latas de cerveja em cima da campa. Ou uma cana de pesca. Gostava de pescar. (Todo-o-Mundo. Philip Roth)
