
– Consegues arranjar três bicicletas para irmos passear pela ilha?
(este homem consegue tudo)
Ainda tivemos que arranjar o descanso e remendar um pneu por 3.000 meticais, cerca de 0.1 euros. Fica-se com a sensação de que, às vezes, mais vale pedir do que trabalhar… Acabámos por pagar 5.000 meticais porque o mecânico não tinha troco.

– Como é? Esta canoa aguenta com três?
(…)
– Não posso mentir. Vamos ver!
E fomos ver. Não aguentou. Levámo-la até ao largo da enseada, mas, quando se tornou impossível conter a subida da água dentro da embarcação, atirámo-nos ao mar. Os meus óculos caíram e estivemos trinta minutos a fazer snorkel à procura deles no fundo do mar. Missão cumprida. Ainda tivemos tempo para aprender a técnica de retirar água de dentro da canoa com a canoa dentro dela. O regresso a terra foi a nado.
Foi uma tarde agradável. Antes já tínhamos percorrido a ilha de bicicleta… Vem a seguir.

Um dia na Ilha de MZ.
Hoje, aprendi, the hard way, uma palavra nova.
Vou a caminho de Nampula. Avião.
– Já tive de tomar um normalizador da flora intestinal. Não são boas notícias.
– A cerveja também se esgota no avião.
– The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy não devia começar tão tarde. Às duas da manhã já está tudo a dormir e, para quem não está, já não há cerveja para acompanhar o filme.
– Conduzir do lado esquerdo, com o volante do lado direito do carro, não é muito seguro nos primeiros tempos.
– Paguei 7 milhões pela minha primeira coca-cola.
Está tudo em aberto. Já não vou para Nampula quando chegar. Vou depois, ou não. Fico mais uns dias, mas não fico porque tenho de voltar pelo trabalho que tenho cá em Portugal. Mas, se calhar, fico. Acho que não. Neste momento, só tenho uma única certeza: a lagosta é grelhada. Mas, provavelmente, só até à primeira que me aparecer à frente noutro estado. Marcha tudo o que é lagosta. E rissóis. E amêijoas. E camarões do Miramar… Que fome!
– Vai tomar mephaquin. Tem problemas cardíacos?
– Não!
– Tem problemas psicológicos?
– Não!… ainda não! … mas… há quem possa discordar.
Já tenho o repelente de mosquitos, mas parece que não chega. Na farmácia uma sra acabadinha de chegar de mz disse que deveria tomar outras coisas com nomes estranhos como mephaquin. O Gonçalo disse que deveria tomar umas coisas… tipo a vacina para a febre amarela.
Vai ao google e pesquisa consulta do viajante egas moniz
[com sorte ainda alguém ainda me arranja vacina a borla…a consulta é amanhã]
Eu bem poderia abastecer-me de ressentimento e encher os bolsos da alma de pessimismo. Isso foi o que sucedeu para muitos dos meus antigos camaradas:eles azedaram, tornaram-se juizes implacáveis do seu próprio passado. Ou pior ainda, esqueceram-se dos principios que e abraçaram comportamentos que antes, condenavam como próprios do inimigo colonial. Não partilho esse ressentimento, nem comungo dessa viragem.
Mia Couto
Revista Mais, Junho 2005
Porque, como ele escreve, a independência tem de ser proclamada todos os dias. Não só a de Moçambique. Também a nossa. A minha. A tua.
– Quanto é que é 20 contos?
– Um euro menos dez paus…
