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(Nos intervalos da vida vou escrevendo um pouco do tpc do curso de escrita criativa. Qualquer coisa sobre a vida de um copo que nem sequer preciso de escrever. Não é qualquer coisa, só não me recordo do que é. “Estilhaços de uma vida” é o título, se não repararam, e estes são alguns dos desabafos do meu copo, um copo de bar.)

Não há glória para muitos, avisou-me meu pai, mas há dignidade e, se tivermos sorte, uma vida longa. Foi assim que nasci para o mundo: com a esperança de ter sorte e a certeza de que começava mal; nasci copo.
(…)
A grande maioria prostitui-se a vida inteira. A última boca que cá esteve é sempre diferente da que vai estar e, na maior parte das vezes, nenhuma das duas é muito agradável.
(….)
Somos de todos e não somos de ninguém. O tempo passa, deixamos de ser, mas a vida de todos continua igual. Ninguém nos chora, ninguém nos tenta remediar. Nessa altura não somos senão pequenos bocados de vidro, invisíveis estilhaços de uma vida.

1) Um minuto para escrevermos os antónimos das cinco palavras anteriores.

– completo
– sujo
– escuridão
– rua
– círculo (?! existia alguma liberdade…)

2) Três minutos para escrevermos um texto com as cinco palavras.

Ninguém vê nesta escuridão. Não vejo eu. Por muito que abra os olhos não sei por que rua caminho. Será que ando em círculos? Não!, ninguém anda em círculos na cidade. Aqui somos quadrados. Nós e as ruas. Aqui somos sujos. Nós e as ruas. Aqui somos um quadrado sujo feito círculo. Somos um traste completo.

É muito fácil querermos fazer o curso de paraquedismo depois do curso de vinhos. O problema surge sempre na manhã seguinte. É nessa altura que se descobrem os heróis. É muito mais fácil imaginamo-nos a saltar de um avião enquanto bebemos um copo de tinto do que com uma ressaca em cima.
Depois há aqueles que até querem fazer o curso de paraquedismo, mas, com tantos cursos que há por aí, é sempre difícil escolher e o paraquedismo acaba por ficar para depois. Agora é o de escrita criativa, depois o de socorrismo, mais tarde, estou certo, deve haver algum de culinária e, não se recordam?!, ando há tanto tempo para aprender crochet… É tudo uma questão de prioridades, mas não só.
Quero realizar dois cursos este ano: socorrismo e paraquedismo. A ordem é irrelevante. Nada do que aprenda no curso de socorrismo, por muito útil que seja, será utilizado, se algo correr mal, no de paraquedismo. O inverso também é verdade, mas, por exclusão de partes, o de socorrismo tem prioridade. A parte que excluo é o curso de paraquedismo.
Termino aqui.

Começo hoje o curso de escrita criativa na Companhia do Eu, um presente de Natal há muito desejado. A este propósito, será prudente avisar que não tenho aspirações de me tornar escritor tal como não tinha aspirações de me tornar bêbado quando fiz o curso de vinhos.

Comprei livros, todos quero ler, e ofereci a quem está mais próximo. Adiei a compra de dois, A Estrada, de Cormac McCarthy, e um outro do qual irei comprar a versão original, em francês. A seu tempo comprar-me-ei a tradução. Os livros que recebi, tal a vontade de os ler, também os poderia ter comprado para oferta. Entretanto, as próximas semanas, os próximos meses, que o tempo nem sempre tem a velocidade que lhe desejamos, serão na companhia de Jorge Luís Borges (Ficções e O Livro Dos Seres Imaginários), os que recebi, e de Ian McEwan (Na Praia de Chesil), Gonçalo M. Tavares (Aprender a Rezar na Era da Técnica), George Steiner (O Transporte Para San Cristobal De A.H.) e Cormac McCarthy (Este País Não É Para Velhos), os que ofereci.

Recebi o que queria, dei quase tudo o que podia. Poderia ter pensado melhor e dado diferente. Carrego sempre esta cruz. Por tudo isto, estranho que os presentes já não sejam o Natal. É estranho, para mim. Faltou-me tudo e, no entanto, tudo foi tão igual ao que sempre foi. Gostava de já ter participado no curso de escrita criativa, talvez conseguisse sentir um Natal melhor, talvez até lhe conseguisse manter a ilusão, mas não a dos presentes, que o meu Natal há muito deixou de lhes pertencer.

Em 2008 vou fazer um curso de escrita criativa. Não preciso. É tudo o que não preciso. Ainda assim, agradecemos a prenda. Agradeço-te, obrigado! A gratidão de quem precisa de muito pouco do que quer. A gratidão de quem quer muito.
Obrigado!

Rodrigo Guedes de Carvalho diz que não percebe a existência de cursos de escrita criativa. Como se pode ensinar alguém a escrever?, perguntava. Eu desisti de aprender. Mentira. Só nunca participei em nenhum curso. Seja possível, ou não, aprender a escrever, o mais importante é saber ler, seja o mundo, seja a vida.

Talvez, um pouco, como as relações…