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Arquivos da categoria 'Poesia'

Olho o céu sem fim
à espera de ver a estrela que tu vês

Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado
à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume

Enfrento os ventos
à espera que tragam uma mensagem tua

Vagueio sem destino
à espera de ouvir uma canção que fale de ti

Olho as mulheres que encontro sem outra intenção
que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos

Al-Thurthusi
Cultura árabe (Andaluzia)
Século XI
Trad.: Jorge Sousa Braga

Sísifo

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga
Coimbra, 27 de Dezembro de 1977

(…)
Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

Sei poucos poemas de cor. Em português sei alguns de Fernando Pessoa – nunca me canso – e em inglês sei três, de poetas diferentes, três lições de vida.

Terminam assim…

If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And-which is more-you’ll be a Man, my son!

Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.

Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

O primeiro é de Kipling, IF. O segundo é de Christina Georgina Rossetti, Remember. O terceiro é de Robert Frost, The Road Not Taken.
Valem sempre a pena.

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth.

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same.

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I–
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost (1874–1963). Mountain Interval. 1920.

[Já em Fevereiro tinha colocado parte deste poema aqui. Fica agora o poema completo. Porque gosto. Porque faz sentido.]

I gotta get you out of my mind
It’s just too crazy, you know
walking ‘round in circles
Feeling down and low
We used to love each other, baby
But love is something you can’t save
I never meant to be your master
and i could never be your slave

Jorge Palma
Lisboa, Fevereiro 1980

[Jorge Palma, hoje, no Du Arte Garden, Casino do Estoril, 23h30]

existes

por entre dias mais felizes
e noites mais sozinhas
caminhas tu
Caminhas por ti
ou por quem tu existes
Nunca vais sozinha.

e és tu
a mulher da minha vida
da que hoje é eterna

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss

IF
Rudyard Kipling

Na vida, talvez o maior dos jogos, também por vezes apostamos tudo no vermelho e sai preto. Há quem aposte no cavalo errado. Há quem siga uma estrada para só mais tarde perceber que está num beco sem saída.
Independentemente do risco que aceitamos, o importante é saber que há sempre forma de recomeçar, nem que seja do zero.

[O poema completo podem encontrar no google. É com esta voz, a de Michael Caine, que mais gosto de o ouvir. Um dos poemas da minha vida.]

procuras-te aqui
nestes dias sem memórias
que nem guardam as histórias
que eu hoje vivi

procuras-te aqui
onde nada se encontra
nem ninguém afronta
a imagem que tem de si

procuras-te aqui
consciente que é demais
encontrares-te nestes anais
antes de saberes de ti

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade
As mãos e os frutos
XXXIV

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa

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