Gozar a Vida
Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e os murmúrios dos velhos mais severos
demos-lhes a todos o valor de um centavo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento,
e mais mil, depois outro cento,
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que os beijos foram tantos
Catulo
(c. 87-c. 52 a. C.)
Roma
Trad.: Maria Helena da Rocha Pereira
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A RAPARIGA DAS ROSAS
(V. 81)
Tu, que trazes as rosas, é rosas o encanto que trazes.
O que é que vendes? aA Rapariga da ti? às rosas, ou às rosas e a ti?
Dionísio, o Sofista
Antologia Palatina
(séc. 1 a. C.?)
Grécia
Trad.: Fernando Pessoa
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Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta
Fernando Pessoa
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Até o jade se parte,
até o ouro se dobra,
até a plumagem de quetzal se despedaça…
Não se vive para sempre na terra!
Duramos apenas um instante!
América, Aztecas
Versão: Herberto Helder
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A Rosa do Mundo
Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.
Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.
Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.
W. B. Yeats
(1965-1939)
Irlanda
Trad.: José Agostinho Baptista
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