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Arquivos da categoria 'Poesia'

nunca como agora
foi tão importante
deixar de parecer
e ser
uma presença constante
por esta vida fora

em cada palavra que mudo
sobrevêm pequenos restos
que faço desaparecer
ao perceber
que é nos pequenos gestos!
que se vê tudo

Muda de vida

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar


António Variações

Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p’la certa.

Não há «p’la certa», poeta!

Mas em todo o acaso acerta
Nem que seja a um verso por ano…

No reino da Dinamarca
Alexandre O’Neill

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(…)
Álvaro de Campos

És o encontro na estrada, és a montanha e o pôr do sol
O vinho bebido em festa, és a papoila e o rouxinol
És a minha maçã de Junho e a minha estrela polar
Sem ti eu não tenho norte, sem ti eu não sei amar
Sem ti eu não tenho norte, sem ti eu não sei amar

Jorge Palma
Maçã de Junho (Paris, 78)

Maldição

Em cada gota que passa por mim
E se desfaz junto ao chão
Sinto-nos mais perto do fim
E um aperto no coração.

E passo o dia num frenesim
Sempre a pensar que se não
As deixar cair assim
Me livrarei desta maldição.

Almada

Passo na ruas desertas de gente
Tropeço em cada memória que destapo
E a nenhuma delas eu escapo
Por mais que queira, por muito que tente.

Com sangria do Boa Esperança
Ou com uma bota do Faustino
Sei bem que o meu destino
Já não passa por ser criança.
Mas ainda tenho confiança,
sem pensar sem ser cretino,
Que todo este desatino
Irá resultar em bonança.

Anseio por um futuro banhado a prata e a ouro.
E se sonhamos sem medo de sonhar
Só existe um lugar onde podemos estar,
pois a lua só é bonita no miradouro.

Fui Pai

Fui Pai
Não por ti mas fui
Por mim pai

Fui ontem
Enquanto comia ou dormia
Fui pai

Fui embora
Sem saber o que fazia
E voltei

Já não estou
Já não sou.

Dor

Não queiras saber por mim
A história daquele dia
Em que me encontraste assim
Ferido que quase morria

São feridas que não têm cura
Em corpo que já não sente
Chagas que aceito com a brandura
de uma dor indiferente

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E rí como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas as flores se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, [não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de sí próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Alberto Caeiro

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
(…)

Robert Frost (1874–1963). Mountain Interval. 1920.

Quantos mortos tu deixaste abandonados ao tempo
sem que deles te lembrasses ao chegar o firmamento

quando corpos abandonaste

quantas balas enviaste sem destino e sem razão
apontado a ninguém, nem ao seu coração

quantas vezes tu fugiste

quantas armas atiraste ao chão
quantas vidas atiraste ao ar
quantos passos deste em vão
até a guerra acabar

quantos sonhos destruíste
numa terra sem razão
quantas vezes tu fugiste
dessa mesma prisão

quantos dias vais viver
sem te conseguires livrar
desse tempo monstruoso em que te deixaste apanhar

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