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Arquivos da categoria 'Poesia'

A águia está sempre no futuro
René Char

Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

Faz, hoje, um ano que morreu.

Por favor, diz-me quem és tu, de novo?

(Quem és tu, de novo? – 1997)

Ali nada senão
O torvelinho de um feto:
Este mundo flutuante.

Kawabata Bósha (1900-1941)
Japão
Trad.: José Alberto Oliveira

(agora, a dois corpos e a quatro mãos)

Nunca falta, nestes dias.

Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos –
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza

ETC. – Herberto Helder

se te visse

se te visse
nua, como se
te visse
perdida sozinha
enlaçada nos braços
de uma estrada
sem destino

nunca houve destino

chamaria por ti
baixinho para não acordares
do sonho que te leva
nessa estrada
sem fim

há sempre um fim

se soubesse teu nome
guardaria-o eterno

Dentro da minha cabana Zulu

É uma colmeia
sem abelha alguma
que levanta as paredes
com tijolos dourados de mel.
Uma caverna cheia
do ruído da mó,
cabaças de leite azedo
cântaros de barro de cerveja espumosa
colchões de erva para dormir,
almofadas de madeira,
peles de cabra curtidas
presas por tiras de couro
a caibros de verga
enegrecidos pelo fumo
de bosta de vaca amassada
que arde debaixo
da panela de tripé
no chão de terra
para cozer a minha aveia.

Oswald Mtshali (n. 1940)
África do Sul
Trad.: José Alberto Oliveira

Sim, meu amor, está bem meu amor
Eu sei que tu tens razão
Dizia-te eu, às vezes, para acabar
Com a discussão…

E lá íamos vivendo,
Entre dois copos e um bom colchão,
Um futuro à nossa frente
E muito amor para mostrar a toda a gente.

Como era bem vivermos a dois
Sem nos darmos mal
(uma canção estrangeira e um filme antigo no telejornal),
E uma noite tu disseste:
Já dei p’ra ti meu… vou arrancar!
E lá fiquei eu, sózinho,
A conversar com os meus botões
E a tentar descobrir a causa
Que nos levou a tal situação…
Já achei uma ideia que é bem capaz
De ser a solução:
Acho que nós passamos muito tempo
A misturar tripas com coração
E a verdade é bem diferente.
Para haver amor, não pode haver o-briga-ção

(Obrigação – 1977)

[o bold é meu]

.

Um dia destes vou ser uma faca qualquer
vou dilacerar a voz da razão
Asfixiá-la, arrancá-la do seu pedestral
Vê-la estremecer dentro do meu eu

(Poema Flipão – 1975)

Um dia

se um dia te cruzares comigo na rua
e não souberes quem sou
não me perguntes as horas
o tempo para nós parou

não pares mas passa devagar
hoje amanheceu galhos, zéfiros
e dedos róseos na orla móvel

e Amanhã o sol há-de brilhar

Espirro cá para fora
a raiva de estar assim
.
Simples? Sem ambiguidades?
Não me tenho.
Não estou em mim.

[outro dia]/[outro dia]

um dia

se um dia te cruzares comigo na rua
e não souberes quem sou
não me perguntes as horas
o tempo para nós parou

não há segundo que não passe sem ti

vou olhar e esperar
parar como o tempo parou
com tempo para te ver passar

[outro dia]

Eu não me afundo mais
Na vida que eu não quis
E vou tentar outro país

Já chega de ilusões
Estou farto de tradições
Que nos impedem de pensar

(Já chega de ilusões – 1975)

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