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Arquivos da categoria 'Poesia'

se um dia

se um dia
começo assim porque não sei
nada
nunca soube
mas nem sempre comecei assim.
começámos ao contrário
e sempre soube
que o fim
esse fim o
nosso seria
para mim para ti
fácil demais. tão dificil
que teria de acabar
como um sonho
que todos acabam os sonhos
o nosso.
se um dia
acabo assim também
porque não sei
nada nunca soube


Katie Melua
Just Like Heaven

Anoiteceu
Acho que é tempo de pensar
Mas hoje estou tão fatigado
Outro cigarro
Outra imperial
agora já me sinto melhor
Ah, se eu pudesse arranjar o mundo
(…)
Porra, já está
Aguentei outro dia

(Monólogo de um cidadão frustrado – 1975)

Solteirice

Espeta-te com o garfo.
Corta-te com a faca.
Deita-te no prato.
Espera.

Alexandre O’Neill

O que há em mim é sobretudo cansaço
— Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos (9-10-1934)

Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil

(Bairro do Amor – 1989)

És a construção do meu poema
És a vastidão da minha voz
És a ilusão, és minha pena

(Dimensão – 1973)

Enfrenta a verdade, sorri na derrota
(…)
Destrói as muralhas que encerram as esperança
(…)
Improvisa a despedida
Que a partida não demora
Como um homem só na vida
Frente ao tempo que o devora

(Poeta – 1973)

Aqui, neste cristal
Há um mundo de certezas
E as dúvidas ficam a ver-nos passar

(Deixem voar este sonho – 1975)

Agarras-te à hora em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão

(com uma viagem na palma da mão – 1975)

um dia

se te cruzares comigo na rua
e não souberes quem sou
não me perguntes as horas
o tempo para nós parou

(não faças ondas)

Já que a solidão te pode atordoar
E a manhã não vai ficar
Eternamente à tua espera
Improvisa um despertar

(Giselle – 1975)

Eu sou quem sou, tenho as minhas mãos abertas
Sei onde vou, sem algemas nem profetas.

(20 anos – 1973)

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