– Vamos lá falar
– Duas pessoas. Está aqui!
Chegamos à Inhaca com 10 contos na mão para pagar o transporte que nem sequer chega à areia da praia. Para trás ficaram três horas no Nyeleti, um barco tão robusto quanto velho utilizado pelos locais e por alguns, poucos, turistas. Não vamos de avião, que demora 15 minutos e custa 50 USD. Vamos de barco que demora 3 horas e custa 6USD. A escolha encontra a racionalidade no preço e na diferença, mas só subsiste pela ilusão. É barato, de facto. O Nyeleti tem duas categorias de preços. Na última viagem que fiz comprei 10 bilhetes para o porão, cerca de 3USD, e foi a última vez que me incumbiram de tal tarefa. O conforto da 1ª classe não é grande, mas os bancos são corridos e almofadados, o ar circula, não costuma haver animais vivos e fica perto do bar. Começa aí a diferença. O ritual parece ser sempre o mesmo. Ainda antes de o zarparmos já vários passageiros estão de cerveja na mão. Vale tudo para passar o tempo. São 8h da manhã, ainda não tomámos o pequeno almoço, mas precisa-se de qualquer coisa no estômago. Alguém que brinda. A nós, aos outros como nós, ainda não há muitos. Espalhamo-nos como podemos. Há quem pegue num livro e adormeça a ler, outros conversam sentados na 1ª classe e os restantes acomodam-se no exíguo corredor que circunda o barco. Não se pode fumar no interior e corre o boato que mais à frente poderemos ver golfinhos. No ano passado, numa viagem de regresso, ultrapassámos uma tartaruga solitária. Somos turistas, todos nós, na ilusão de que é possível saber o que é viajar no Nyeleti.
Tenho um amigo que está cá há três anos, quase quatro, e nunca foi à Inhaca. Penso se o problema da Inhaca não será estar perto de mais de Maputo. Ponta do Ouro, Chongoene, Chidenguele, Pomene, Tofo e Inhambane… tanto, e mais ainda, para ver, tão longe, porquê Inhaca? Nunca foste à Inhaca? É o meu quarto fim de semana lá.
À chegada saltamos para o barco que nos levará a terra. 10 contos (0.3 euros) para ainda andar 50m com a água pelos joelhos. Houve uma altura em que não molhávamos os pés, mas parte da estrutura ruiu. Os italianos tiveram muita pressa quando fizeram isto. São 2/3 barcos a fazer o serviço. Ainda cabe mais um? Cabe sempre mais um até começar a meter água e a viagem confirma. Antes de chegar à praia, sabia que iria ser assim, é sempre assim: – Olá, tudo bem? O Alberto nunca falha.
(há-de continuar)