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Arquivos da categoria 'Aleatorio'

Pés descalços
     pisam caminhos de areia

Pés descalços
      pisam sujos caminhos de areia

Pés cansados negros e descalços
      pisam tristes sujos caminhos de areia

Pés negros
      pisam tristes caminhos da vida

Ilídio Rocha

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

José Craveirinha

A recordar a Ilha de Moçambique há cerca de um ano. Os quatro dias que lá passei coincidiram com as festas e a noite encheu-se de batuques que alimentavam danças em cada esquina. tambor ecoando como a canção da força e da vida

L’esprit aussi, comme toute chose, a tremblé.
L’aigle est au futur.

René Char

A águia está sempre no futuro
René Char

Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

Faz, hoje, um ano que morreu.

Por favor, diz-me quem és tu, de novo?

(Quem és tu, de novo? – 1997)

Ali nada senão
O torvelinho de um feto:
Este mundo flutuante.

Kawabata Bósha (1900-1941)
Japão
Trad.: José Alberto Oliveira

(agora, a dois corpos e a quatro mãos)

Nunca falta, nestes dias.

Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos –
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza

ETC. – Herberto Helder

Dentro da minha cabana Zulu

É uma colmeia
sem abelha alguma
que levanta as paredes
com tijolos dourados de mel.
Uma caverna cheia
do ruído da mó,
cabaças de leite azedo
cântaros de barro de cerveja espumosa
colchões de erva para dormir,
almofadas de madeira,
peles de cabra curtidas
presas por tiras de couro
a caibros de verga
enegrecidos pelo fumo
de bosta de vaca amassada
que arde debaixo
da panela de tripé
no chão de terra
para cozer a minha aveia.

Oswald Mtshali (n. 1940)
África do Sul
Trad.: José Alberto Oliveira

Sim, meu amor, está bem meu amor
Eu sei que tu tens razão
Dizia-te eu, às vezes, para acabar
Com a discussão…

E lá íamos vivendo,
Entre dois copos e um bom colchão,
Um futuro à nossa frente
E muito amor para mostrar a toda a gente.

Como era bem vivermos a dois
Sem nos darmos mal
(uma canção estrangeira e um filme antigo no telejornal),
E uma noite tu disseste:
Já dei p’ra ti meu… vou arrancar!
E lá fiquei eu, sózinho,
A conversar com os meus botões
E a tentar descobrir a causa
Que nos levou a tal situação…
Já achei uma ideia que é bem capaz
De ser a solução:
Acho que nós passamos muito tempo
A misturar tripas com coração
E a verdade é bem diferente.
Para haver amor, não pode haver o-briga-ção

(Obrigação – 1977)

[o bold é meu]

.

Um dia destes vou ser uma faca qualquer
vou dilacerar a voz da razão
Asfixiá-la, arrancá-la do seu pedestral
Vê-la estremecer dentro do meu eu

(Poema Flipão – 1975)

Eu não me afundo mais
Na vida que eu não quis
E vou tentar outro país

Já chega de ilusões
Estou farto de tradições
Que nos impedem de pensar

(Já chega de ilusões – 1975)

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