Rodrigo Guedes de Carvalho diz que não percebe a existência de cursos de escrita criativa. Como se pode ensinar alguém a escrever?, perguntava. Eu desisti de aprender. Mentira. Só nunca participei em nenhum curso. Seja possível, ou não, aprender a escrever, o mais importante é saber ler, seja o mundo, seja a vida.
Talvez, um pouco, como as relações…
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Dois dos livros que recebi ,nos últimos dias, foram de guerra.
A Ilíada, de Homero, e as Cartas, de António Lobo Antunes à sua jóia querida.
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São estes os resultados finais. O grande vencedor foi o livro de Somerset Maugham que reuniu quatro votos. É uma pena que ninguém tenha escolhido o Henry Miller e surpreendente que um dos leitores deste blogue tenha escolhido Diogo Freitas do Amaral, com os livros de ciência política, em vez da Margarida. Acontece.
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Na últimas duas semanas tenho vindo a acumular na minha mesa de cabeceira alguns livros de poesia que vou resgatando das prateleiras do escritório.
Atingi o fim da linha e ontem tive de levar comigo os sonetos da Florbela Espanca. Necessária renovação urgente na secção de poesia.
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém
Florbela Espanca
Minha culpa
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No início da semana tive de esperar uma hora até que alguém chegasse com a chave do escritório. Nunca é grave.
I want to know if you can be alone with yourself,
and if you truly like the company
you keepin the empty moments.
Gosto da minha própria companhia. Peguei em dois livros que tinha no banco de trás do carro e estacionei num café que abriu com nova gerência. Nova e jeitosa, por sinal.
Já depois de pagar, enquanto virava as costas, a nova gerência chama-me e:
– Desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta indiscreta?
As minhas pernas não deveriam ter tremido tanto em pleno terramoto de 1755. Mantive-me tão firme quanto consegui, disse-lhe que sim, respondi e, desde então, tenho lá ido tomar café pela manhã. Gosto de ler os jornais com calma e a nova gerência tem sempre o DN e A Bola. Só por isso.
Hoje cheguei, olhei a capa d’A Bola, li a capa do DN e sentei-me com o suplemento relativo ao terramoto de 1755. Nova gerência:
– Tenho aqui a National Geaographic deste mês que tem uma reportagem sobre o terramoto. Quer ver?
Se fosse sismólogo, o que aconteceu a seguir poderia ser descrito como uma réplica.
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Gosto da Joana, gosto do Carlos, gosto do Rodrigo e gosto do Fernando.
Do Fernando gosto para lá das memórias do tempo.
Eu te rogo me defendas de cair na fornicação e me livre tua mansidão do ódio e da malquerença, desça sobre mim teu Santo Espírito e alumie a minha escrita.
Do Rodrigo gosto para lá da primeira palavra.
Eu viria talvez povoado
hipotéticos fantasmas quem sabe
Gosto da Joana, acho que já tinha dito. Ela gosta do Rodrigo. E gosto do Carlos. Um dia… e se… entrevisto-o. O Carlos gosta do Rodrigo.
Leio-os, oiço-os, e assumo que são o que escrevem, que são o que dizem. Não tenho outra forma de ler nem de ouvir. Por isso, corro tanto o risco de gostar deles como corro de não gostar. Mas gosto de correr e arrisco-me a não gostar.
Hoje, enquanto esperava, não consegui ficar quieto naquela casa que não é minha e agarrei todos livros que forravam as paredes. Com todos eles me revolvi. Acho que também já disse que gosto do Fernando.
Trouxe-os comigo. O Rodrigo e o Fernando. São outras leituras.

(acerca do livro do Rodrigo oiçam também estes sinais.)
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Porque nem só de dramas vivem os livros a ti coloquei-te na mesa de cabeceira. Estás por baixo de todos os restantes volumes da minha vida. Cansei-me de te ler. As tuas palavras esgotaram a minha capacidade de me entender. À noite, de olhos meio abertos, meio fechados, canso-me de ter de reler parágrafos inteiros que já não entendo à primeira. À segunda, já não quero entender. Deixei de te ler. Prefiro reler Somerset Maugham. Como ele diz, tenho pouca história para contar e não termino nem com uma morte nem com um casamento.
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A Beatriz vai nascer a 16 de Janeiro. Ou um pouco antes… ou um pouco depois! O mais importante em tudo isto é que a Beatriz vai nascer. A ML está extasiada. Eu também. Fico muito feliz, não só por a adorar, mas porque sei que, provavelmente, há poucas coisas no mundo que ela quisesse tanto.
Com a ML já partilhei um blogue que, por minha culpa, não continuou a viver. Agarrei-me aqui e não tive capacidade suficiente para manter o outro. É de lá que te escrevo, aqui.
Na cozinha deixei cair um livro pesado. O bebé brincava e agora olha-me assustado. Olhos enormes azuis espelham medo. Estático, sentado, observa-me durante uns segundos. Gatinha ao meu encontro. Parece dizer: pega-me rapidamente. Trepa as minhas pernas e estica os braços. Choraminga e depois grita. Não lhe posso pegar. Falta-me espaço nos braços e nas mãos. Tento cantarolar uma melodia conhecida para ver se o acalmo. “olhá bola Manel, olha a bola Manel, foi-se embora fugiu….” Não resultou. Chora compulsivamente. Rendo-me à sua inquietação e pouso os livros em cima da mesa. Pego-lhe. Levanto-o sobre a minha cabeça onde permanece assim uns segundos. Caiu-me uma lagrimazinha salgada no canto do meu lábio.
O bebé já não chora; sorri. Há uma quantidade infindável de brinquedos espalhados pelo chão. Cores que se misturam e que chocam entre si. O objecto preferido é um parte-noz, de madeira de tamanho pequeno, sem nada que chame a atenção. Talvez por não ser brinquedo e por lhe ser retirado muitas vezes das mãos. O bebé brinca agora sossegado.
Calmo, palra e sorri.
ML
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A 16 de Janeiro de 1605 começou a ser comercionalizada e primeira edição de “Dom Quixote de la Mancha”. Em Portugal os 400 anos têm sido assinalados por edições da obra com mais ou menos categoria. Eu estou de olho nesta.
A propósito, do musical, Man Of La Mancha, a música.
To dream the impossible dream
To fight the unbeatable foe
To bear with unbearable sorrow
To run where the brave dare not go
To right the unrightable wrong
To love pure and chaste from afar
To try when your arms are too weary
To reach the unreachable star
This is my quest
To follow that star
No matter how hopeless
No matter how far
To fight for the right
Without question or pause
To be willing to march into Hell
For a heavenly cause
And I know if I’ll only be true
To this glorious quest
That my heart will lie peaceful and calm
When I’m laid to my rest
And the world will be better for this
That one man, scorned and covered with scars
Still strove with his last ounce of courage
To reach the unreachable star
[Uma versão em português]
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Há pessoas que se recordam e outras que se sonham. Para mim, Núria Monfort tinha a consistência e a credibilidade de uma miragem: não questionamos a sua veracidade, seguimo-la simplesmente até que se desvanece ou nos destrói. (…)
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Ambos perguntavam a si mesmos se teriam sido as cartas que a vida lhes tinha dado, ou se teria sido a maneira como as haviam jogado.
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Queria ser-te, queria estar em ti, no mistério vivo e absoluto que tu és. Queria ser o deus fascinado de ti, no centro de ti, vendo-te, cheirando-te, sabendo-te, ouvindo-te, todo redondo e cheio, dentro e fora de ti, no vazio de ti, na espessura ardente e obscura do teu ser. Como te quero assim, no inteiro contacto, tocando-te e respirando-te, ardendo onduladamente em tuas veias! Esta é a mais perfeita glória, o gozo mais pleno, a mais maravilhosa identidade. Estou em ti e já nada me distancia ou me separa do que tu és dentro de ti e fora de ti.
(…)
Estou dentro do teu corpo, maravilhosamente dentro, no sol do teu sexo, no centro da tua consciência. Sinto-me extremamente vivo em todos os teus poros. Toco o que tu tocas, ardo onde tu ardes, respiro o que tu respiras. Tudo o que eu disser é a tua própria palavra, a tua confiança vertiginosa, o teu alento de fulgurante ignorância.
António Ramos Rosa
Viver em Ti

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“Em criança aprendi a conciliar o sono enquanto explicava à minha mãe, na penumbra do meu quarto, as incidências da jornada, as minhas andanças no colégio, o que tinha aprendido nesse dia.”
Eu também me lembro de estar a chegar da escola primária e explicar à minha mãe o que tinha aprendido nesse dia. Inevitavelmente, a partir de determinada altura, deixei de explicar. Preocupa-me que, a partir de determinada altura, eu, como parece acontecer com alguns, possa deixar de aprender.
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