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  • Rosa do Mundo .12

    Estudo

    Através da janela
    mando
    a negra razão
    falar com a
    paisagem.

    Ernst Meister (1911-1979)
    Alemanha
    Trad.: João Barrento

  • Tomou-me vossa vista soberana

    Tomou-me vossa vista soberana
    Aonde tinha as armas mais à mão,
    Por mostrar que quem busca defensão
    Contra esses belos olhos, que se engana.

    Por ficar da vitória mais ufana,
    Deixou-me armar primeiro da razão;
    Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
    Que contra o Céu não vale defensa humana.

    Mas porém, se vos tinha prometido
    O vosso alto destino esta vitória,
    Ser-vos tudo bem pouco está sabido.

    Que posto que estivesse apercebido,
    Não levais de vencer-me grande glória;
    Maior a levo eu de ser vencido.

    Luís de Camões

  • Se houvesse degraus na terra…

    Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
    eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
    No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
    E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
    e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

    Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
    levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
    Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
    e a fímbria do mar, e o meio do mar,
    e vermelhas se volveram as asas da águia
    que desceu para beber,
    e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

    Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
    Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
    Correram os rapazes à procura da espada,
    e as raparigas correram à procura da mantilha,
    e correram, correram as crianças à procura da maçã.

    Herberto Helder

    Por estes dias ouve-se Laura Fygi e entrego-me depois de me ter perdido com Herberto Helder. Se, pelo menos, houvesse degraus…

  • Poema

    Pés descalços
         pisam caminhos de areia

    Pés descalços
          pisam sujos caminhos de areia

    Pés cansados negros e descalços
          pisam tristes sujos caminhos de areia

    Pés negros
          pisam tristes caminhos da vida

    Ilídio Rocha

  • Quero Ser Tambor

    Tambor está velho de gritar
    Oh velho Deus dos homens
    deixa-me ser tambor
    corpo e alma só tambor
    só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

    Nem flor nascida no mato do desespero
    Nem rio correndo para o mar do desespero
    Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
    Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

    Nem nada!

    Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
    Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
    Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

    Eu
    Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
    Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
    Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

    Oh velho Deus dos homens
    eu quero ser tambor
    e nem rio
    e nem flor
    e nem zagaia por enquanto
    e nem mesmo poesia.
    Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
    Só tambor noite e dia
    dia e noite só tambor
    até à consumação da grande festa do batuque!
    Oh velho Deus dos homens
    deixa-me ser tambor
    só tambor!

    José Craveirinha

    A recordar a Ilha de Moçambique há cerca de um ano. Os quatro dias que lá passei coincidiram com as festas e a noite encheu-se de batuques que alimentavam danças em cada esquina. tambor ecoando como a canção da força e da vida