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  • a vida

    "Muito obrigado. Pode ir à sua vida"

    Assim, a quase todas as testemunhas, depois do dever cumprido, nada mais do que a a sua vida, a dele, dizia o juiz, que a mais ninguém pertence.

    "Muito obrigado. Faça favor de se sentar."

    E ali fiquei eu e a vida que não deveria ser minha.

  • ainda de ontem: Orlando Furioso

    ainda de ontem: Orlando Furioso

  • Adormecer

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    Foto: Berlim [TP]

    Entre os teus lábios
    é que a loucura acode,
    desce à garganta,
    invade a água.

    No teu peito
    é que o pólen do fogo
    se junta à nascente,
    alastra na sombra.

    Nos teus flancos
    é que a fonte começa
    a ser rio de abelhas,
    rumor de tigre.

    Da cintura aos joelhos
    é que a areia queima,
    o sol é secreto,
    cego o silêncio.

    Deita-te comigo.
    Ilumina meus vidros.
    Entre lábios e lábios
    toda a música é minha.

    Eugénio de Andrade

  • sem esperança

    Património, de Philip Roth, não é um livro que se leia com gosto. Felizmente, digo eu, não é o primeiro. Em todos os livros, Philip Roth consegue fazer acreditar que é possível que assim seja, assim como ele escreveu, com dor, com desespero e angústia, com medo. A desgraça humana, o farrapo que somos, a verdade, acreditamos, está lá toda. O fim dos dias. O fim dos nossos dias. Este livro, contudo, tem a particularidade de falar verdade. Há pouco espaço para a ficção. A história é a do pai, dos seus últimos dias, por muitos ainda venham a ser, contada a partir do momento em que lhe é diagnosticado a doença que não tinha. A história do princípio do fim, ficamos a saber na primeira frase. Se com os outros livros acreditamos na verdade, ainda que com algum espaço para a dúvida, com algum espaço para a fé, com este nem nos damos ao trabalho. Não há esperança. Para ninguém.

  • Património – Philip Roth

    Patrimonio Philip Roth Já comprei o último livro de Philip Roth lançado em Portugal.

    Património é mais uma dor que se alastra e permanece. Dizem, e aí tenho de ficar pelo que me dizem, que um escritor escreve sobre o que é e que a ficção nunca é senão parte da nossa realidade. Em Património, Philip Roth não tem de ficcionar uma história verdadeira de tal forma a que ela deixe de o ser para continuar a ser. A história é simples e é sua. Um familiar. Cancro. E todos nós, algures no tempo.