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  • não há mortes

    Quantos mortos tu deixaste abandonados ao tempo
    sem que deles te lembrasses ao chegar o firmamento

    quando corpos abandonaste

    quantas balas enviaste sem destino e sem razão
    apontado a ninguém, nem ao seu coração

    quantas vezes tu fugiste

    quantas armas atiraste ao chão
    quantas vidas atiraste ao ar
    quantos passos deste em vão
    até a guerra acabar

    quantos sonhos destruíste
    numa terra sem razão
    quantas vezes tu fugiste
    dessa mesma prisão

    quantos dias vais viver
    sem te conseguires livrar
    desse tempo monstruoso em que te deixaste apanhar

  • Poema

    Tragam silvos de dor
    que arrastem esta vida
    amargurada pelo torpor
    de uma razão escondida

    Criem laivos de cor
    Que adornem a corrida
    que faz com o fulgor
    de uma guerra vencida

  • Algures no tempo


    “Em criança aprendi a conciliar o sono enquanto explicava à minha mãe, na penumbra do meu quarto, as incidências da jornada, as minhas andanças no colégio, o que tinha aprendido nesse dia.”

    Eu também me lembro de estar a chegar da escola primária e explicar à minha mãe o que tinha aprendido nesse dia. Inevitavelmente, a partir de determinada altura, deixei de explicar. Preocupa-me que, a partir de determinada altura, eu, como parece acontecer com alguns, possa deixar de aprender.

  • SANTO-E-SENHA

    Deixem passar quem vai na sua estrada.
    Deixem passar
    Quem vai cheio de noite e de luar.
    Deixem passar e não lhe digam nada.

    Deixem, que vai apenas
    Beber água de Sonho a qualquer fonte;
    Ou colher açucenas
    A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

    Vem da terra de todos, onde mora
    E de onde volta depois de amanhecer.
    Deixem-nos pois passar, agora.

    Que vai cheio de noite e solidão.
    Que vai ser
    Uma estrela no chão.

    Miguel Torga

  • Regresso

    Caminho em estradas repetidas
    Vezes sem conta, dias sem fim
    Caminho e em cada uma destas corridas
    Procuro-te, um pouco, dentro de mim.

    Paro, às vezes, e respiro fundo.
    Cansa-me fugir deste frenesim.
    Paro sempre no mesmo mundo,
    Aonde chego de onde vim.