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  • Almada

    Passo na ruas desertas de gente
    Tropeço em cada memória que destapo
    E a nenhuma delas eu escapo
    Por mais que queira, por muito que tente.

    Com sangria do Boa Esperança
    Ou com uma bota do Faustino
    Sei bem que o meu destino
    Já não passa por ser criança.
    Mas ainda tenho confiança,
    sem pensar sem ser cretino,
    Que todo este desatino
    Irá resultar em bonança.

    Anseio por um futuro banhado a prata e a ouro.
    E se sonhamos sem medo de sonhar
    Só existe um lugar onde podemos estar,
    pois a lua só é bonita no miradouro.

  • Fui Pai

    Fui Pai
    Não por ti mas fui
    Por mim pai

    Fui ontem
    Enquanto comia ou dormia
    Fui pai

    Fui embora
    Sem saber o que fazia
    E voltei

    Já não estou
    Já não sou.

  • Dor

    Não queiras saber por mim
    A história daquele dia
    Em que me encontraste assim
    Ferido que quase morria

    São feridas que não têm cura
    Em corpo que já não sente
    Chagas que aceito com a brandura
    de uma dor indiferente

  • O Guardador de Rebanhos – XXVIII

    Li hoje quase duas páginas
    Do livro dum poeta místico,
    E rí como quem tem chorado muito.

    Os poetas místicos são filósofos doentes,
    E os filósofos são homens doidos.
    Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
    E dizem que as pedras têm alma
    E que os rios têm êxtases ao luar.
    Mas as flores se sentissem, não eram flores,
    Eram gente;
    E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, [não eram pedras;
    E se os rios tivessem êxtases ao luar,
    Os rios seriam homens doentes.

    É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
    Para falar dos sentimentos deles.
    Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
    É falar de sí próprio e dos seus falsos pensamentos.
    Graças a Deus que as pedras são só pedras,
    E que os rios não são senão rios,
    E que as flores são apenas flores.

    Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
    E fico contente,
    Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
    E não a compreendo por dentro
    Porque a Natureza não tem dentro;
    Senão não era a Natureza.

    Alberto Caeiro

  • The Road Not Taken

    Two roads diverged in a yellow wood,
    And sorry I could not travel both
    And be one traveler, long I stood
    (…)

    Robert Frost (1874–1963). Mountain Interval. 1920.