Parou o carro. Sabia o que havia de fazer. Abriu a porta e dirigiu-se ao porta bagagem. Queria pôr o triângulo, queria justificar o facto de ter o carro parado. Apercebeu-se de que era inútil e que os carros atrás dele estavam demasiado perto. Seria impensável colocar o triângulo mais atrás e impensável estar a perder tempo com isso. Nem sequer tinha ligado os 4 piscas.
Contornou o carro pela parte de fora e galgou a grade. O ferro não era muito alto e não requeria que a sua forma física fosse muito boa, por isso não teve dificuldade em passar primeiro a perna direita e depois a perna esquerda por cima do ferro. Sempre virado de frente .
Estava com azia.

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Agora era um instante para passar a portagem da Ponte 25 de Abril. O trânsito era pouco e com a via verde nem precisou de parar. Quando comprou carro a primeira coisa que fez foi adquirir a via verde. Detestava andar no trânsito. A mãe insistiu para que comprasse um carro vermelho.
Vermelho mãe?!, respondeu ele num tom quase de repulsa. Não tinha nada contra o vermelho, até era do Benfica dizia sempre para justificar, mas andar com um carro vermelho era demais para ele. Preferiu o Peugeaut 106 Cinza metalizado, um carro discreto e porreiro para quem ainda não tem família nem muito dinheiro.
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A caminho de Lisboa deu consigo a reparar na ponte que está a ser construída para o metro de Almada. Percebeu que estava a olhar como se fosse a primeira vez que por ali passava. Tivera essa mesma sensação na primeira vez que fora ao estrangeiro. No dia em que chegou a Benidorm o seu olhar retivera os mais absurdos pormenores. Na altura era diferente, era a primeira vez que saía de Portugal, e aquelas imagens queria levar consigo. O estímulo de então era outro, mas o resultado parecia ser o mesmo. Não estava em Benidorm, mas era a primeira vez que conduzia até Lisboa. Parecia.
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Já saiu da praia às 18h30. Estava com fome e passou pelo café da praia para lanchar uma tosta.
Sempre boa, pensou ele enquanto saboreava a primeira dentada.
A primeira vez que lá tinha ido fora com a Luísa, quando andava no 9º ano. Na altura estavam de férias e tinham ido para a praia com o pessoal da turma. A Luísa, que morava na mesma rua, mas num outro prédio, andava sempre atrelada a ele. Ele gostava. Naquele dia saíram da praia às 19h00 e perderam o autocarro por dois minutos. Tinham de esperar mais meia hora pelo próximo e resolveram ir ao café. Aquele foi o primeiro que apareceu. Era um café igual aos outros, mas com tostas gigantes e muito saborosas. Com a fome que estavam foi do tamanho que mais gostaram. Tornou-se ponto de paragem quase obrigatório em dias de praia. Passou a ser o bar da praia.
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O almoço foi agradável.
– Hoje apeteceu-me vir almoçar aqui, disse-lhe como justificação para um momento fora do normal. Não queria que a mãe pensasse que somente tinha ido por estar relativamente perto. Ele tinha ido porque lhe apetecia. Ela aceitou com a felicidade que só as mães sentem 30 anos depois de terem dado à luz e perceberem que a ligação entre os dois será, certamente, eterna.
Depois do almoço passou pela Costa. Gostava da praia, de apanhar um pouco de Sol, de ver o mar, de lhe sentir o cheiro. Mais do que de qualquer outra coisa, era do cheiro que ele mais gostava. Por isso tanto ia à praia no Verão como no Inverno. Desde pequeno que o cheiro do mar exercia sobre ele um efeito reconfortante. Ele deixou-se ficar, mesmo apesar do calor que o incomodava por causa das calças e camisa que vestia.
Quando acordou de manhã não sabia bem o que iria fazer e por isso vestiu-se informalmente, mas escolheu a melhor roupa. Umas calças claras e a camisa azul que a mãe lhe tinha oferecido no último aniversário. Ao almoço a mãe não reparou na roupa.
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O almoço foi com a Mãe. Ela estranhou que ele lhe tivesse telefonado a meio da manhã para combinarem almoçar juntos.
– Mas não trabalhas?, perguntou duvidando que ele tivesse tempo de ir e voltar a Lisboa numa hora e meia.
– Tirei o dia de férias para tratar de uns assuntos. Estou deste lado.
Era a primeira vez que isso acontecia. Tinha mudado de emprego há três anos e desde que trabalhava em Lisboa viam-se de manhã e, às vezes, também à noite. Nas noites em que não se viam era porque ele tinha ido jantar com os amigos e, como costumava dizer, beber uns copos.
– Então encontramo-nos à porta do “Verde e Amarelo”.
Ela sabia que ele gostava de tudo o que fosse comida italiana.
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