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Arquivos da categoria 'Aleatorio'

uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia

E.M. de Mello e Castro

Jorge Palma
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Jorge Palma

Há uns anos, naquela altura em que ainda não podemos votar, mas em que já sabemos que a história da cegonha não é bem como nos contaram, juntei-me ao Gonçalo e ao Miguel para formarmos um clube. O nome não vem muito a propósito pela simples razão que, hoje, me parece um bocado redutor dos seus grandiosos propósitos. O grande objectivo inicial era não fazermos nada e passarmos uma tarde no café na conversa, com estilo. Rapidamente metemos o estilo na gaveta e surgiu a ideia de escrevermos um poema, durante a semana, que depois seria lido ao café na sexta-feira, à tarde. Leitura, discussão, gozação.

O Miguel era o pseudo intelectual. Na altura lia mec.
Eu era o pseudo apaixonado. Rimava amor com calor e paixão com melão.
O Gonçalo era o pseudo cómico. É fã do Tom Cruise e só isso dá vontade de rir.

Passámos umas semanas a brincar aos poetas até que a miss carmen também se quis aventurar nestas lides. Numa noite imprópria para consumo a Carmen leu-nos o seu primeiro poema. Momento solene. Já só recordo a pujança do poema. Discussão, gozação e mandámos a carmen ir crescer para o quarto. Foi a última vez dela.

Nós também fomos crescer. O Miguel deixou de ler mec, eu deixei de rimar e o gonçalo deixou de ver o Cocktail. Nesse dia, deixámos de escrever poesia. Continuámos a ir ao café, de vez em quando, ler poemas, cuidadosamente seleccionados, de Bocage.

Amar dentro do peito…

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Pontes .3

The Bridges of Madison County

There is a pleasure in the pathless woods

There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar:
I love not man the less, but Nature more,
From these our interviews, in which I steal
From all I may be, or have been before,
To mingle with the Universe, and feel
What I can ne’er express, yet cannot all conceal.

Lord Byron

(de trás para a frente… começa no .3
há pontes que não nos atrevemos a passar.
devíamos.)

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos de minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor…
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…

Vinicius de Moraes

Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Inger Christensen
Dinamarca
Trad.: José Alberto Oliveira

LMC

Não o conheço. Nunca o vi no palco. Sei, mais ou menos, quem é. Até já poderei ter visto uma foto ou outra, mas não me recordo. Ele existe. Acredito. Eu, nesta instável existência, encontro nele algum equilibro. A voz preenche-me. Invejo-a. Delicio-me. Ouvi-lo dizer este poema de Ruy Belo é transcendental, penetrante.

Luís Miguel Cintra ganhou o Prémio Pessoa 2005.

Nada ou seja o que for existe sem mim ou para além de mim.
Os átomos do universo poderão ser contados, mas não tanto as minhas manifestações;
Pois para sempre faço criar inúmeros mundos.


Srimad Bhagavatam
Índia
Trad.: Manuel João Magalhães

Gozar a Vida

Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e os murmúrios dos velhos mais severos
demos-lhes a todos o valor de um centavo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento,
e mais mil, depois outro cento,
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que os beijos foram tantos


Catulo
(c. 87-c. 52 a. C.)
Roma
Trad.: Maria Helena da Rocha Pereira

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer
(…)

Fernando Pessoa

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