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Não acredito no céu. Não sei se alguma vez acreditei em Deus, mas, muitas vezes, recordo de me ter refugiado na sua omnipresença e capacidade de transformar a água em vinho, na capacidade de fazer milagres. Todos nós precisamos de milagres a determinada altura da vida e eu já pedi alguns. Há uns anos, há muitos anos, num 24 de Dezembro, lembro-me de, rodeado de um silêncio só meu e coberto por um manto de temor, ter pedido um desses milagres. Os milagres pedem-se, pensava eu. Estava sozinho, pensava eu. Não estava e os milagres não se pedem. Deixei-me disso.

Não acredito na reencarnação. Não acredito, também, como já escrevi, que nada disto influencie a sua existência ou a crença de quem me rodeia. Se Deus existir há-de perdoar-me. Se existir reencarnação, hei-de reencarnar e continuar o meu trabalho. Há um conforto especial na reencarnação. The very purpose of a reincarnation is to continue the unfinished work of the previous incarnation. Podemos deixar para amanhã o que não conseguimos fazer hoje.

Acredito em mim, na maior parte das vezes, mas isso não interessa muito agora. Hoje farias anos. Recupero o Santo António, o que me deixaste, e o Presépio, o que me deixaste, que todo o tempo tem permanecido à vista de quem passa. Recupero regularmente memórias de ti, hoje não é especial, de nós, de tudo o que passámos. Recupero-te. Hoje farias anos. Se hoje é especial, é por isso. A tua morte, como todas, privou-me de ti. Sozinho agarro-me às memórias e descubro, contigo, o poder que encerram. Tenho o poder de te recuperar. Recupero-te e, sabes, acredito que não morreste. É o único milagre que preciso.

curtas

Portageiro: boa tarde
Condutor: Olá! Permita-me esta pergunta. Há aí uma cooperativa de vinhos…
Portageiro: há uma, capataz?
Condutor: é essa
Portageiro: eu não conheço… mas… já ouvi falar. mas a saída não é esta. É aveiras. Depois segue sempre em frente e na primeira rotunda segue em frente até ver um pavilhão. Não vira na primeira. vira depois a esquerda.
condutor: obrigado
Portageiro: dê aí a volta…

Carne de porco ‘à casa’, bifes com cogumelos, arroz, batata, vinho da casa, vinho do bom, sangria, aguardente velha, bagaço, sobremesa, café… Cada um teve o que quis.

– Quanto é?
– Sete e meio

O preço não é fixo, mas é como se fosse. Sete e meio. Já todos sabiam. No dia seguinte voltámos para almoçar. Bitoque, imperial, sobremesa.

– Quanto é?
– Sete e meio

Houve quem não tivesse comido sobremesa. Houve quem tivesse bebido água. Não interessa nem a ninguém importa. Ali as contas são entre amigos.

– Até logo sr. João

És o encontro na estrada, és a montanha e o pôr do sol
O vinho bebido em festa, és a papoila e o rouxinol
És a minha maçã de Junho e a minha estrela polar
Sem ti eu não tenho norte, sem ti eu não sei amar
Sem ti eu não tenho norte, sem ti eu não sei amar

Jorge Palma
Maçã de Junho (Paris, 78)

Pardal

Não te tento perceber
Quando pousas no parapeito.
Virás tu para me ver?
Ou vais saltanto a eito?

Nem sempre pousas sozinho
Quando vens ao parapeito.
Perguntas-me, eu adivinho,
se o amor é perfeito.

Hoje encontrei o Marcos.
O Marcos é, sem dúvida, o maior especialista de vinhos que conheço e, nesta área, poderá vir a ser uma referência a nível nacional. Trabalhou na José Maria da Fonseca, hoje está na UNICER, nos vinhos, e está a tirar um Wine MBA, em França, que o irá fazer viajar para o Chile, EUA e Austrália.
“E a tua mãe, como está?”
O curso é integralmente em inglês, mas em França, com os colegas, o “zero à esquerda” que ele diz que sempre foi a francês, dá para conseguir comunicar.
“Diz-lhe isso!”

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