Não acredito no céu. Não sei se alguma vez acreditei em Deus, mas, muitas vezes, recordo de me ter refugiado na sua omnipresença e capacidade de transformar a água em vinho, na capacidade de fazer milagres. Todos nós precisamos de milagres a determinada altura da vida e eu já pedi alguns. Há uns anos, há muitos anos, num 24 de Dezembro, lembro-me de, rodeado de um silêncio só meu e coberto por um manto de temor, ter pedido um desses milagres. Os milagres pedem-se, pensava eu. Estava sozinho, pensava eu. Não estava e os milagres não se pedem. Deixei-me disso.
Não acredito na reencarnação. Não acredito, também, como já escrevi, que nada disto influencie a sua existência ou a crença de quem me rodeia. Se Deus existir há-de perdoar-me. Se existir reencarnação, hei-de reencarnar e continuar o meu trabalho. Há um conforto especial na reencarnação. The very purpose of a reincarnation is to continue the unfinished work of the previous incarnation. Podemos deixar para amanhã o que não conseguimos fazer hoje.
Acredito em mim, na maior parte das vezes, mas isso não interessa muito agora. Hoje farias anos. Recupero o Santo António, o que me deixaste, e o Presépio, o que me deixaste, que todo o tempo tem permanecido à vista de quem passa. Recupero regularmente memórias de ti, hoje não é especial, de nós, de tudo o que passámos. Recupero-te. Hoje farias anos. Se hoje é especial, é por isso. A tua morte, como todas, privou-me de ti. Sozinho agarro-me às memórias e descubro, contigo, o poder que encerram. Tenho o poder de te recuperar. Recupero-te e, sabes, acredito que não morreste. É o único milagre que preciso.
Também já pedi um milagre [desses].
Também já só acredito em mim.
E no que aqueles que amamos nos deixam.
Se a reencarnação existir.
Voltamos. De certeza.
Temos tanto trabalho para acabar.
Tambem já perdi… para o reencontrar em todas as coisas que costumavamos fazer… na altura acreditei em milagres que não vieram… ou não vieram os que eu esperava. Mas ensinou-me a acreditar eu Deus, não em um especifico, não em uma religião, mas num que me ajuda a recorda-lo.
Talvez seja esse o milagre da vida.
Fiquei horas a olhar para o que foi aqui escrito… reparei q, pela 1ª vez, dava por mim a pedir um desses milagres… desisti de o pedir, não por pensar que ele não virá mas porque o meu pedido não dignifica o nome… Sem querer vocês mostraram-me que eu tenho a sorte de não precisar de milagres!!! A sensação de perda é um sentimento estranho talvez porque tive a sorte de ainda não ter perdido nada verdadeiramente. Acho que esse é o milagre da minha vida!!! Acreditar nisso é muito bom…
Talvez não devesse estar a responder. O teu blog é o teu diário com o cadeado partido. Mas os parabéns não são para o mundo, não são para mim, e por isso talvez não devesse estar a comentar. De qualquer forma, sinto-me impelida e responder.
Não sei sequer se acredito na reencarnação. E não sei sequer se gostava que fosse verdade. Não sinto essa necessidade. Nem por mim nem por quem perdi. Mas claro que acredito que as pessoas existem mesmo depois de morrerem. E acredito porque depois da perda passei a reconhecer umas pessoas nas outras. Porque depois da minha perda passei a reconhecer os gestos, as expressões em mim. Porque passei a reparar em como também preciso de 10 min sozinha quando acordo e que se os tiver fico muito bem disposta, canto e digo bom dia a quem passa. Passei a reparar em como também invento canções parvas para aqueles de quem gosto. Passei a reparar em como também faço versões de músicas tontas. Reparei em como herdei o riso, a posição em que adormeço, a forma dos olhos e dos dedos dos pés. Passado um ano bastam-me dois segundos para recuperar o cheiro, o toque, o sorriso e voz de quem perdi. Não preciso de mais do que esses segundos para pensar em como o meu pai reagiria às coisas que por cá se passam.
Agora estou mais atenta.
Reparo na minha mãe porque sei que o que os sentidos descobrirem agora é o que me vai ficar quando não a tiver. Reparo na minha irmã porque posso ficar sem ela. Reparo nas nossas semelhanças mais do que naquilo em que somos diferentes.
Percebo melhor o que me cativa nos meus amigos. Decoro-lhes o riso e o que os faz rir.
Não sei se acredito ou não na reencarnação. Acredito que daqui a 250 anos alguém ainda terá alguma coisa de mim. Que mesmo que eu não vá ter filhos ou sobrinhos alguém que me conheceu irá absorver alguma coisa minha como eu absorvo dos outros e que o irá transmitir a quem conhecer. Pelo menos eu gostava que assim fosse.
Glory, dizes tudo.
Quando comecei com o blogue, há mais de um ano, partilhei essa informação com muitos poucos amigos e nem sequer tinha espaço para comentários. Depois incluí essa possibilidade. Retirei-a e voltei a inclui-la. Foi mais ou menos assim. Nos últimos tempos descobri o poder dos comentários e, neste momento, não faz sentido ter o blogue sem a oportunidade de poder receber, por parte de quem me lê, algum reflexo do que escrevo. Preciso tanto de ler os comentários como de escrever posts. Obrigado.
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