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As Velas Ardem Até ao Fim - Sándor Márai Hei-de terminar o livro hoje. Ando a arrastar há dois dias. Leio com calma. Meia dúzia de páginas e paro. Volto atrás. Arrasto-me, como quem tenta adiar o inevitável. Há livros que não queremos que acabem.

Perdi para o Rui Silva, diz-se que bateu o recorde da prova, mas ganhei ao engenheiro.

Em 10 dias de meditação fiquei claramente a perder. Seis quilos a menos e muita saúde. Algo a que não estou habituado. Por isso, hoje almocei no Painel de Alcântara (peçam meia dose, comam tudo e tentem trabalhar à tarde. vão perceber). Recebi dois convites para jantar e aceitei-os. Um de cada vez. Amanhã mega almoço familiar. Mega nas pessoas e mega na comida. À noite, jantar de aniversário com grupo de amigos de infância e juventude. Nunca é só muita comida. Domingo, 10h, dez quilómetros entre Algés de Oeiras, na corrida do Tejo. Isto tem de fazer mal a alguma coisa.

Pessoas normais, pensei. A beleza não surge na face das pessoas normais. É preciso alguém que, na escala, se encontre nooutlier para que o conceito surja e nos prenda. A repulsa não é beleza, mas também não surje em pessoas normais. Ali estava eu, pessoa normal, no meio de pessoas normais, a fazer o que as pessoas normais fazem no meio de pessoas normais: passar despercebido.

Não é fácil imaginar a perfeição, mas é impossível não a ver ao nos cruzarmos com ela. Para as pessoas normais olhamos, mas não as vemos. A perfeição vemos sem precisar de olhar, olhamos e deixamos de a ver. Eu deixei. Tropeçar nos degraus nesse momento fez-me abrir os olhos para a realidade. Temos de nos distanciar da beleza.

Há segregação total entre homens e mulheres em nove dos dez dias de meditação. Eu devo ser a razão para isso. A concentração é difícil, por vezes impossível, e manter os olhos fechados por mais de dois minutos facilmente se torna numa eternidade. O tempo esvai-se na eternidade e tudo perde o seu sentido. Abro os olhos. Somos cinquenta e só eu de olhos abertos. Atento no rosto de meditação de alguns e penso que deve ser esse o segredo do amor. Temos de gostar desse rosto, do rosto de meditação da outra pessoa. Só há um. Podemos ter vários sorrisos, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, …, podemos ter os mesmos vários olhares, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, …, mas só temos um rosto de meditação. Não há alegria, tristeza, frustração, medo ou paixão que afecte esse semblante. É o que de mais puro tem a nossa face. Ali era fácil e a ninguém precisava de pedir: da-me a tua melhor cara de meditação. A melhor, como se não soubesse.

Ela tinha o melhor rosto de meditação. Minto. Ela tinha o melhor corpo de meditação. Eu tinha dores. Facilmente aprendemos que a desconcentração não facilita uma hora em adhitthana, sem poder mexer pernas, mãos e sem abrir os olhos. Passei os dias sem lhe poder falar. Nove dias num esforço, muitas vezes inglório, para me concentrar. Uma eternidade a fazer planos. No décimo dia, pensava. Só isto. No décimo dia. Falar.

Ao nono dia ela não apareceu e no décimo ninguém lhe falou. Anicca. Tudo é impermanente.

Ao meu filho, um dia que o tenha, não hei-de oferecer um baby blog, mas sim um blog de babes e educá-lo para que se nunca vier a compreender os mistérios da beleza feminina os possa, pelo menos, suportar.

* lê-se ánitcha

Era uma boa geração, um pouco solitária por natureza, que vivia em desarmonia com o mundo, eram orgulhosos, mas acreditavam em algo: na honra, nas virtudes do homem, no silêncio, na solidão, na palavra dada e também nas mulheres.
As velas ardem até ao fim – Sándor Márai

estou a aceitar

Perco-me mais do que perco aquilo que tenho. Perco tudo. Acredito que até já tenha perdido o que não tinha. Resta-me o conforto de nunca ter perdido ninguém.
Porque ainda há esperança, procuro o livro que comprei no domingo.

Quando era miúdo, regressado de férias, passava por todos os cantos da casa a tentar perceber se algo estava diferente. Invariavelmente, tudo na mesma. Assim foi no domingo, já não pela casa, mas pelo mundo, tentando perceber o que teria mudado, o que teria acontecido, nos dez dias de isolamento. Tudo na mesma. Em dez dias saíram duas novas edições da TimeOut. Pouco mais.
Hoje é quarta e quase saí de casa com a revista debaixo do braço, tão imediata que foi a passagem pela papelaria. Esplanada, pequeno almoço, tudo justificado, e muito bem, com o trânsito caótico na ponte. Vantagens de quem mora na margem sul.

(assim sim)

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