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Arquivos da categoria 'Poesia'

Poema

Tragam silvos de dor
que arrastem esta vida
amargurada pelo torpor
de uma razão escondida

Criem laivos de cor
Que adornem a corrida
que faz com o fulgor
de uma guerra vencida

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E de onde volta depois de amanhecer.
Deixem-nos pois passar, agora.

Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.

Miguel Torga

Regresso

Caminho em estradas repetidas
Vezes sem conta, dias sem fim
Caminho e em cada uma destas corridas
Procuro-te, um pouco, dentro de mim.

Paro, às vezes, e respiro fundo.
Cansa-me fugir deste frenesim.
Paro sempre no mesmo mundo,
Aonde chego de onde vim.

Pardal

Não te tento perceber
Quando pousas no parapeito.
Virás tu para me ver?
Ou vais saltanto a eito?

Nem sempre pousas sozinho
Quando vens ao parapeito.
Perguntas-me, eu adivinho,
se o amor é perfeito.

Estrelas

Como são tristes as estrelas
que nos separam no deserto.
Como são tristes, mas belas
Quando as vejo mais de perto.

Preciso de tempo para dormir!
Compro-o a quem conseguir
esperar pelo tempo que há-de vir.

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