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penso

no conforto que é saber, não, o que não se quer, mas, sim, o que se quer

pistoleiro

ainda disparo em todas as direcções


Calista Flockhart
fazes-me rir

Não podes sentir saudades. Não tens esse direito. Queres contar-me tudo! Não podes. Eu não quero saber nada. Só te quero, toda, como sempre quis. Por isso, voltas.

Aceitei a perda.

Não te perdi. Simplesmente, não te esqueci. que é como quem diz, tentei esquecer-te, mas não consegui. Mas vivo com isso. Tornaste-te numa doença crónica. Aprendi a viver com isso.

Vivo com um pouco do meu veneno.

Voltaste! Ainda não sofri o suficiente, por isso, voltas. Drama? Não é drama, porque a vida nunca parou. Eu segui em frente, embora não tenha encontrado outra alma gémea. Acho que, mesmo que me tenha cruzado com ela, nunca teria tido tempo de a saber como tal. Por isso não é drama, é simplesmente uma carta de amor. Esta é a minha carta de amor e tu sabes bem que
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

[Fernando Pessoa]

Novamente. Aconteceu-me o mesmo. Desta vez não choro. Estou triste, tenho de estar, mas nada me afectou tanto. E, diria, estou ainda mais apaixonado que da primeira vez. Já não és a mesma, não és, já não és tu, é outra, mas não choro e estou mais apaixonado. Talvez a primeira constipação me tenha protegido de alguns dos sintomas. Talvez me proteja.

Como vive alguém protegido do amor? Como vive alguém imune aos males da paixão?

Da primeira vez não sabia bem o que me tinha acontecido, ou melhor, sabia bem o que me tinha acontecido. Não era normal estar sentado em frente da televisão, as noticias do costume, e começar a chorar. Chorava. Aceitei a tristeza como uma leve constipação e pensei: “passa”. Nunca sequer considerei a hipótese de me medicar para algo tão banal, tão vulgar. Mas estava adoentado. Chegava a casa, depois de uma saída com os amigos, já com uns copos, e ensaiava um mail, algo que pudesse fazer chegar até ti o que me revolvia por dentro. Chorava. Começava a chorar na primeira frase e não chegava a terminar o primeiro parágrafo. Nenhuma dessas mensagens alguma vez te chegou as mãos. Depois, tal como uma leve constipação, passou. Integrei-te em mim, noutra forma, mas em pleno. Consumi-te. Somos amigos. Passaste a fazer parte de mim, do meu outro, mas a vida não acabou em ti.

O tempo continua a mudar a cada estação do ano e todos os anos me constipo.

encontrámo-nos
as estradas são as mesmas
os cheiros, os teus,
não mudaram
mas nessas estradas ermas
os cheiros, os meus,
não ficaram

trouxe tudo comigo
não te deixo nada
nunca.
nunca hoje.

hoje

Hoje encontrámo-nos. Não me recordo do último dia em que tínhamos estado juntos. Talvez chegue a altura em que poderei explicar como tudo aconteceu, mas talvez nunca chegue o dia em que o queira fazer. Nunca acabámos, mas fomos acabando até deixarmos de existir. Hoje voltámos a estar juntos.

Estacionámos o carro no nosso parque, à nossa hora e também fomos ao nosso restaurante. Depois, voltámos a ficar no carro a conversar, como tantas vezes fizemos. Trocámos um beijo envergonhado. Um único. Para os restantes já não houve tempo para cerimónias. Já nos vimos nus. Não há espaço para cerimónias. Foi muito bom. Foi óptimo sentir-te o corpo. Foi melhor sentir-te perto de mim.

O pior é saber que este é um jogo que não vamos conseguir ganhar.

às vezes pergunto-me para onde foste

continuo a ver-te, mas não sei onde estás

Toda a verdade e nada mais que a verdade. E, sabendo o que sei, porque disseste, vivendo o que vivi, contigo, não faz sentido se deixámos de ter esta inocência. Não sei onde a perdi. Deixei de acreditar. Parece que deixei de acreditar no único Pai Natal que conheci, mas não deixei de acreditar em ti. Simplesmente, deixei de acreditar em nós.

Ontem dizia-se que os políticos não ganham se disserem a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Meias verdades?! Talvez resida aí o truque da política. Talvez também aí esteja a solução para a vida.

O meu problema é que não quero metade de ti.

Quero-te toda.

Nós não tínhamos nenhum tipo de inocência quando começámos a nossa relação. Nunca tivemos. Não faz parte dos amantes.

Tínhamos uma, talvez. Afinal, talvez, novamente porque a nossa relação sempre foi feita de dúvidas e nunca de certezas, ninguém sobreviva sem um pouco de candura, mesmo que aparente.

Criámos o mito do toda a verdade e nada mais que a verdade. Era esse o nosso grito de inocência. Mais importante que tudo seria a verdade. Para quem tinha começado com uma mentira a verdade era o nosso oxigénio e o que nos mantinha acima de água. Flutuávamos sobre a vida não com um manto mágico, mas com a enigmática verdade.
(…)

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