A mancha humana
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Em Setembro, deixei esquecido o livro de Philip Roth, em Maputo. Em boa hora o recuperei. Qualquer hora seria boa.
Sob os auspícios de Afrodite, disfarçado de Pigmalião e nas imediações de Tanglewood, estaria agora o professor reformado de literatura clássica a dar vida à transgressiva e recalcitrante Faunia na pele de uma Galateia requitadamente civilizada?
Sendo que dar carácter público a uma coisa tende apenas a corroer a sua intensidade, é isso que, de facto, querem?
Lembrei-me de uma coisa que ele me contara ter-lhe Faunia dito no resplendor crepuscular de uma das suas noites, quando tanto parecia esar a passar-se entre eles. Ele dissera-lhe: «Isto é mais do que sexo», e ela respondera, redondamente: «Não, não é. Tu é que te esqueceste do que o sexo é. Isto é sexo. Sexo puro. Não lixes tudo fingindo que é outra coisa.»
Ele diz dança para mim e eu penso: Por que não? Por que não, de facto… só que isso pode levá-lo a pensar que eu alinho e finjo com ele que se trata de outra coisa. Ele vai fingir que o mundo é nosso, eu vou deixá-lo fingir e depois acabo por fazer o mesmo. Mas, mesmo assim, por que não? Eu posso dançar… mas ele tem de se lembrar. Não pode esquecer que isto é apenas o que é, apesar de eu não ter nada em cima para além do anel de opala, nada além do anel que ele me deu. Isto resume-se a estar nua na frente do meu amante, nua, com as luzes acesas e amover-me. Muito bem, tu és um homem, já deixaste a juventude para trás, tens uma vida tua e eu não faço parte dela, mas sei o que está em jogo. Procuras-me como homem e como tal te aceito. É muito. Mas é só isso e mais nada. Eu danço nua para ti com as luzes acesas e tu também estás nu, mas tudo o mais não conta. É a coisa mais simples que jamais fizemos. É mesmo. Não lixes tudo pensando que é mais do que isso. Tu não pensas e eu não quero. Não tem de ser mais do que isso. Sabes uma coisa? Eu topo-te Coleman.
Depois diz-lho em voz alta:
– Sabes uma coisa? Eu topo-te.
– Sério? Então o inferno vai começar.
– Perguntamo-nos – se nos interessa saber – se haverá Deus. Queremos saber por que estamos neste mundo. Para quê? Para isto. Para estares aqui e eu fazer isto para ti. Não é para pensares que és outra pessoa qualquer noutro lugar qualquer. Se és uma mulher e estás na cama com o teu marido, não fodes por foder, não fodes para te vires, fodes porque estás na cama com o teu marido e é essa a coisa certa. Se és um homem, estás com a tua mulher e estás a fodê-la, mas ao mesmo tempo pensas que queres foder a mulher da limpeza dos correios. Muito bem, sabes uma coisa? Estás com a mulher da limpeza.
Ele diz em voz baixa, a rir:
– E isso prova a existência de Deus.
– Se isso não prova, nada prova.
– Continua a dançar.
– Quando morremos, que importância pode ter o facto de não termos casado com a pessoa certa?
– Nenhuma. Nem mesmo quando estamos vivos tem importância. Continua a dançar.
– Então o que é que tem importância, Coleman?
– Isto.
– Agora sim! Agora estás a aprender.
Para me libertar de quê? Da glória estúpida de ter razão. Da ridícula demanda do significado. Da campanha interminável pela legitimidade.