Espeta-te com o garfo.
Corta-te com a faca.
Deita-te no prato.
Espera.
Alexandre O’Neill
Espeta-te com o garfo.
Corta-te com a faca.
Deita-te no prato.
Espera.
Alexandre O’Neill
O que há em mim é sobretudo cansaço
— Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço…
Álvaro de Campos (9-10-1934)
Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil
(Bairro do Amor – 1989)
És a construção do meu poema
És a vastidão da minha voz
És a ilusão, és minha pena
(Dimensão – 1973)
Enfrenta a verdade, sorri na derrota
(…)
Destrói as muralhas que encerram as esperança
(…)
Improvisa a despedida
Que a partida não demora
Como um homem só na vida
Frente ao tempo que o devora
(Poeta – 1973)