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Há uns tempos ligaram-me, número anónimo, e começaram a conversa com um “quem fala?”.
Desconfio. Talvez porque, normalmente, sei para quem ligo.
Depois de mais umas trocas de palavras faço-lhe a vontade.
– Sou o Tiago.
Só então o meu interlocutor encontrou o que lhe faltava para me começar a ameaçar como se um nome, o meu nome, qualquer nome, fosse mais do que nada. É muito difícil conhecer alguém pelo nome.

Entretanto, já em Maputo, num dos muitos jantares, sentei-me ao lado de alguém que conhece um amigo meu. Tem de conhecer, afinal andaram juntos no Colégio Militar.
– Chama-se Pedro Santos, disse-lhe.
– Qual é o número dele?
– Desculpa?
– É muito difícil conhecer alguém do Colégio Militar pelo nome.
– hmmm… estou a ver. Passas-me os camarões, sff?

Hoje percebo que ninguém quer conhecer ninguém. Na verdade, hoje percebo que ainda não quis conhecer ninguém. Só o nome.

* The Invitation

take it easy

Jorge Ben
teaser

… quando o caminho que queremos seguir é diferente do da nossa montada.
Cavalgada em Pomene

Whale Shark @ Mozambique, Tofo
a mergulhar com tubarões

Now I become myself. It’s taken
Time, many years and places;
I have been dissolved and shaken,
Worn other people’s faces,
Run madly, as if Time were there,
Terribly old, crying a warning,
“Hurry, you will be dead before–”
(What? Before you reach the morning?
Or the end of the poem is clear?
Or love safe in the walled city?)
Now to stand still, to be here,
Feel my own weight and density!
The black shadow on the paper
Is my hand; the shadow of a word
As thought shapes the shaper
Falls heavy on the page, is heard.
All fuses now, falls into place
From wish to action, word to silence,
My work, my love, my time, my face
Gathered into one intense
Gesture of growing like a plant.
As slowly as the ripening fruit
Fertile, detached, and always spent,
Falls but does not exhaust the root,
So all the poem is, can give,
Grows in me to become the song,
Made so and rooted by love.
Now there is time and Time is young.
O, in this single hour I live
All of myself and do not move.
I, the pursued, who madly ran,
Stand still, stand still, and stop the sun!

May Sarton

Dali Clock The Persistance of Memory
Hoje almoço, sozinho, bacalhau à gomes de sá.

Uma história, por mais verdadeira que seja, tem tantas versões, todas elas tão verdadeiras quanto a realidade o permita, quantas quisermos.

Ontem, por exemplo, ao regressar da festa surpresa do Francisco, virámos no Sheik para uma estrada que tem menos buracos que o solo lunar, mas maiores. Íamos a menos de 50km/h, velocidade claramente excessiva, quando uma carrinha com quem nos cruzámos, carregada de polícias sem nada para fazer, encetou uma perseguição ao nosso carro. Escusado será explicar quais os pressupostos de uma perseguição, mas, ainda assim, arrisco-me a dizer que um deles é não perceber que estão atrás de nós. E 50km/h é uma velocidade estonteante num slalom de crateras. Quando nos apanharam, uns bons cinquenta metros à frente, no preciso momento em que estávamos parados para entrar na garagem, surgem cinco dos agentes da autoridade que pedem documentos. O carro está cercado e nós a pensar que é preciso mudar o sistema automático de abertura de portas da garagem. Temos documentos. O carro tem documentos, os meus ainda estão na migração. O condutor segue o agente até à carrinha enquanto ele nos vai acusando de ter mostrado uma arma quando nos cruzámos na estrada. Vale tudo!, são essas as regras do jogo. Explica-se que um dos passageiros precisa de tomar medicamento da malária às 11h e já tá com quase 24h de atraso. Pois é, nós também precisávamos de tomar uns medicamentos… Pode-nos ajudar? Vale mesmo tudo, até contar a história de outra forma. É que, ontem, o Francisco fez anos e às onze e meia já estava em casa. O resto é conversa…

jardim jaleco
Enquanto me preparo para mais uns dias fora de Maputo arrumo o Jardim Jaleco ali no canto…

Maragra

Variar um pouco com o meu sábado em fotografias…

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (101) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (102)
Partida àquela horas das onze em direcção à Maragra. Para trás ficou o jantar de despedida da Patrícia, uma noite mal dormida e uma manhã ainda pior. Na 24 de Julho a confusão do costume.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (105) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (106)
Abençoado que estava o nosso caminho seguimos em direcção ao almoço. Praia? Depois do pão, sempre depois do pão, já dizia Danton.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (117) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (125)
Leitão. Deve ser isto a mão invisível de Adam Smith. Há dias combinávamos um jantar, em Dezembro, na mealhada e hoje tínhamos um leitão na mesa. O mercado da saudade em funcionamento.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (132) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (134)
Com a cabeça a apanhar vento e a tirar algumas fotografias gritei para pararem o carro. No STOP foi onde encontrámos os óculos que me tinham voado da cara.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (151) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (153)
Passagem sem guarda… e sem comboio.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (162) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (163)
Não se pode tirar fotografias. Queremos ir à praia. Não pode.
Ficámos uns bons 15 minutos a argumentar. Quando começou a chover o guarda resolve pedir autorização ao superior e em cinco minutos estávamos a caminho.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (179) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (182)
Maragra é propriedade privada. Não sei se é a maior plantação de açúcar de Moçambique, mas, assim de repente, é uma coisa a atirar para o muito grande e com estradas de perder de vista. (Maragra na BBC)

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (192) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (199)
Ninguém percebe muito de mecânica e não foi difícil descobrir que estávamos sem travões. Queríamos perceber se podia ser mais grave, pois sem travões o carro anda e isso é o mais importante. A viagem continuou. Paisagens bonitas, mas a praia continuava uma miragem cada vez mais desfocada devido ao estado dos meus óculos.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (206) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (205)
Paragem forçada. A nossa e a deles. Não percebemos muito de mecânica, já avisei, mas sabemos a regra número um para quem fica preso na areia: vazar pneus. 60 segundos.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (207) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (208)
Felizmente apareceu um chapa cheio ajuda…

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (214) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (243)
… e nós seguimos caminho… ora a pé… ora de carro… até que…

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (245) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (247)
…chegámos e, finalmente, pudemos…

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (288) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (289)
… brincar, com as ondas, ao quem é mais forte. Perdemos.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (521) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (532)
De regresso à ancestral técnica dos 60 segundos

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (543) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (551)
O Sr. Alberto pediu-nos uma lift. Pelo caminho, por pouco não voou carrinha fora num buraco que os travões que não tínhamos não conseguiram evitar, mas chegou são e salvo a casa. A sua mulher agradeceu-nos com uma cabaça.

Moçambique Maputo Maragra Mozambique (554) Moçambique Maputo Maragra Mozambique (553)
Antes do regresso ainda parámos para um jogo de damas, um refresco e mais uns minutos de convívio.

to cope with

Os dias são passados na conversa, a lavar e a arrumar carros. A mim já ninguém me pede moeda para guardar o carro. Num dos primeiros dias firmei um contrato de prestação de serviços com um deles para a lavagem do carro. Desde então cumprimentamo-nos e, de vez em quando, ele pergunta-me se pode lavar. Vou dizendo que sim. Há uns dias, mal me viu a sair do prédio, veio ter comigo a dizer que precisava de 50 contos para meter os papeis de pedido de novo cartão de identidade. Dei-lhe a nota e ele deu-me crédito de duas lavagens e meia. Seguimos caminho. Ainda não lhe disse que, ao fim deste tempo, percebi que o serviço mais importante que ele me presta não é o da lavagem. Não raramente, ao sair de casa, caminho pela Julius Nyerere à procura do meu carro. Olho para a direita, olho para a esquerda, vou em direcção ao Polana, não o encontro, volto para trás, volto a parar. Há uns dias, depois de uma sessão destas, olhei em frente e sorri. Sentado no muro ele esticou o braço e indicou-me o caminho. Alarguei o sorriso, agradeci-lhe com um sinal, ele sorriu de volta, e entrei no carro estacionado à porta de casa.

vida de cão

Há dois dias este blogue fez dois anos. Há dias em que parece que foram dois anos de cão.

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