Há uns dias descobri que era preciso bem mais do que um cavalo e uma praia para que me pudesse armar cavaleiro. Ensinou-me, a montada, que antes de mais precisaria de me aguentar em cima dela. Naquele momento pouca diferença fez. Mais cavalo, menos cavalo, mais praia, menos praia, falta tudo quando até a Dulcineia fica em casa. O melhor é regressar. A pé.
Hoje, finalmente, rendi-me à evidência e entreguei-me aos livros, ao livro, a um, ao do mais bravo dos cavaleiros, mas começo a duvidar que seja essa a solução. Os livros, os livros…
Vossa senhoria, por favor, mande-os queimar também – gritou a sobrinha – porque, quando o meu tio estiver curado do mal de cavalaria, pode ler estes livros e sair por aí, feito pastor, errando pelos bosques e pelos campos, a cantar e a tocar flauta, ou pior ainda, tornar-se poeta, que é doença incurável e contagiosa, segundo dizem.
Dom Quixote
Miguel Cervantes