A chuva acaricia a tarde. Outono recém-nascido na terra Dona Francisca. Alheio a tudo, um marimbondo constrói sua casa. Traz nas patas mínimos tijolos. Vôo a vôo, ergue sua habitação. O homem ampara-se um instante na segurança arquitetônica do inseto. Sempre vislumbrou para si uma casa construída palavra a palavra, sentimento a sentimento. Ele nunca teve o instinto da construção presente no marimbondo, mas tinha vontade, tinha perícia com os sentires, alguma imaginação e muito suor para dar. Queria tanto erguer sua casa num espaço que melhor lhe aprouvesse: podia ser sobre um ipê amarelo, próximo do mangue, embaixo da cidade, dentro de si mesmo. O homem precisava de uma casa, da mesma forma que todas as crianças precisam daquela casa sem porta e sem janela, sem teto, chão e parede. Não sabe em que lugar do tempo ele errou. Em qual momento desistiu de construir a casa desejada e começou a arquitetar estas “quatro paredes sólidas”. Esta prisão de alvenaria imaginada, preenchida pelas vontades da mulher, dos filhos, da decoradora antenada com o que há de mais moderno em decoração.Ele agora é um homem misturado entre as lembranças da infância, quando brincava de fazer caverna nos barrancos, castelos nos areais e a percepção da paciência com que o inseto faz sua moradia no caibro da varanda. Dois mundos perdidos. As casinhas da infância esvaeceram, e logo a casa do marimbondo será derrubada pelas mãos limpas da empregada. O homem sabe disso e chora. Pensa impedir, deixar uma ordem para que não desmanchem o trabalho do bicho. Só que ele destruiu um desejo, se asilou nas distâncias da posição social, das contas bancárias e carros do ano, por que então deixaria parte de sua varanda ser suja por um marimbondo construtor? Se não tem mais suas “quatro paredes mágicas” não será uma insignificância qualquer que erguerá morada frente a seus olhos.
O homem se arrepende de tal pensar. Duelam nele o mundo externo, das aparências, e o mundo interno feito de perdas, sonhos, derrotas mínimas, alegrias espaçadas, esperanças. Uma guerra diária. Ele, sempre que possível, esquece, mas tem dias em que um simples olhar, um acontecimento desimportante leva-o à exasperação. É como se ele fosse um reservatório que vez em quando transborda. Hoje, foi um ato delicado da natureza. Um inseto e sua casa de barro agrediram a vida dele, dispuseram a sua frente mais delicadezas, memórias, intensidades do que pode agüentar. Um marimbondo, numa tarde chuvosa de outono, deu ao homem a dimensão das “quatro paredes flácidas” que o sustentam. O marimbondo, que nunca desiste enquanto não concluir aquilo a que foi destinado, ensinou ao homem que ele sempre foi feito de agonia inversa: a desistência contumaz dos sonhos.
Rubens da Cunha
[Obrigado]
[Música: Chet Baker – Goodbye]
eu é que agradeço, por receberes estas palavras nas quais, ainda que alheias, posso/poderia habitar. a música traz a suavidade das ‘paredes flácidas’
[…] O blogue do Rubens da Cunha, o “Das construções e desistências”, é o Casa de Paragens. […]