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Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
(…)

Robert Frost (1874–1963). Mountain Interval. 1920.

Quantos mortos tu deixaste abandonados ao tempo
sem que deles te lembrasses ao chegar o firmamento

quando corpos abandonaste

quantas balas enviaste sem destino e sem razão
apontado a ninguém, nem ao seu coração

quantas vezes tu fugiste

quantas armas atiraste ao chão
quantas vidas atiraste ao ar
quantos passos deste em vão
até a guerra acabar

quantos sonhos destruíste
numa terra sem razão
quantas vezes tu fugiste
dessa mesma prisão

quantos dias vais viver
sem te conseguires livrar
desse tempo monstruoso em que te deixaste apanhar

Poema

Tragam silvos de dor
que arrastem esta vida
amargurada pelo torpor
de uma razão escondida

Criem laivos de cor
Que adornem a corrida
que faz com o fulgor
de uma guerra vencida

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E de onde volta depois de amanhecer.
Deixem-nos pois passar, agora.

Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.

Miguel Torga

Regresso

Caminho em estradas repetidas
Vezes sem conta, dias sem fim
Caminho e em cada uma destas corridas
Procuro-te, um pouco, dentro de mim.

Paro, às vezes, e respiro fundo.
Cansa-me fugir deste frenesim.
Paro sempre no mesmo mundo,
Aonde chego de onde vim.

Pardal

Não te tento perceber
Quando pousas no parapeito.
Virás tu para me ver?
Ou vais saltanto a eito?

Nem sempre pousas sozinho
Quando vens ao parapeito.
Perguntas-me, eu adivinho,
se o amor é perfeito.

Estrelas

Como são tristes as estrelas
que nos separam no deserto.
Como são tristes, mas belas
Quando as vejo mais de perto.

Preciso de tempo para dormir!
Compro-o a quem conseguir
esperar pelo tempo que há-de vir.

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