Auto-retrato
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O’Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada…)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…
Alexandre O’Neill
Poemas com endereço (1962)
aí está um poeta
muito português. O’neill melancólico, entre as maçãs, e fontanelas, algumas vezes em azenhas. um dos nossos sacanas neorealistas com mais piada, mas também mais terrivelmente triste. ciclotímico. bipolar. neurasténico. contributos de uma teresa e de muitos copos. a visão pragmática da vida que transforma o talento e a veia em tostões da publicidade. sempre teve mar e mar. ainda deixou, menos conhecido, o num lusospuma nunca se dá só uma