Queria ser-te, queria estar em ti, no mistério vivo e absoluto que tu és. Queria ser o deus fascinado de ti, no centro de ti, vendo-te, cheirando-te, sabendo-te, ouvindo-te, todo redondo e cheio, dentro e fora de ti, no vazio de ti, na espessura ardente e obscura do teu ser. Como te quero assim, no inteiro contacto, tocando-te e respirando-te, ardendo onduladamente em tuas veias! Esta é a mais perfeita glória, o gozo mais pleno, a mais maravilhosa identidade. Estou em ti e já nada me distancia ou me separa do que tu és dentro de ti e fora de ti.
(…)
Estou dentro do teu corpo, maravilhosamente dentro, no sol do teu sexo, no centro da tua consciência. Sinto-me extremamente vivo em todos os teus poros. Toco o que tu tocas, ardo onde tu ardes, respiro o que tu respiras. Tudo o que eu disser é a tua própria palavra, a tua confiança vertiginosa, o teu alento de fulgurante ignorância.
António Ramos Rosa
Viver em Ti

“Não te quero perder. Quero ganhar-te.
(…)
Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade”
“O rosto, o pé, a mão. Mas é a extrema tensão do pescoço que suporta, estende, magoa, procura atingir a superfícei dura. Forma. Linha simples. Separar. Entrar dentro do simulacro. O coração.
(…)
Movimento abrupto das pernas. Sem cor. Íntimo.
Amo-te transita pela linha vermelha. Intimidade. O adeus e o sono.
A dança. Abraço. As tábuas do chão evocam o estreitar e o alargar do tempo. A vibração é como sempre rápida mas a memória detém-se, fica.
Lembro-me de ti. Ontem.
Criar. Os pés, de vermelho e negro. Ah, dançavam? Não sei quem era.”
(Emma, Mafalda Ivo Cruz)