É fácil perdermo-nos no barulho e confusão de Maputo. Os vendedores de rua são particularmente insistentes e aparecem de todos os lados. Há sempre pessoas na rua e, no nosso prédio, é normal encontrarmos, à porta, mais pessoas na conversa. É um outro mundo ao qual facilmente nos habituamos. Talvez por isso ninguém tenha estranhado que, ao entrarmos no prédio, viesse atrás de nós um pouco desse barulho e confusão. A Ana Rita estava a entrar no elevador e nós, com um olhar de relance, vimos dois homens de uns vinte e muitos anos, mas pouco ligámos e seguimos para o elevador. No mesmo instante a confusão aumentou um pouco e ficámos de olhos postos nas armas que cada um deles tinha na mão. Deu para perceber que não nos iam convidar para um copo.
Em Maputo a palavra de ordem é argumentar. Argumenta-se com os vendedores de batiques de forma a baixar o preço. Argumenta-se com a polícia para não darmos dinheiro para refresco. Argumenta-se ao longo do dia, várias vezes ao dia e, para tudo isso, só precisamos de tempo e paciência. É um jogo interessante. Depois do susto inicial recuperámos a compostura e tentámos fazer alguma coisa em relação ao que estava a acontecer. Como contra armas não há heróis, optámos pela via diplomática e começámos a argumentar. Não conseguimos ter os telemóveis de volta, mas conseguimos convencer um dos assaltantes que os cartões nos dariam algum jeito e que para eles não serviriam de nada. Então, ali mesmo à porta do prédio, já com um dos assaltantes no carro da fuga, o outro mete a arma no bolso e começa a tirar os vários cartões dos vários telemóveis. Quase deu vontade de o convidar a subir e a beber connosco um Porto. No final só o chip do argumentador mor não foi recuperado. Foi azar.