Bósnia
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Joaquim Sapinho realizou um documentário na Bósnia. O sofrimento não me permitia aproximar das pessoas, é o que se pode ler na página do Público. Há mais no jornal. Um pouco mais no documentário. Tudo o resto, o que é verdadeiramente importante, continua lá, onde regresso, daqui.
Quando, em 1998, estive na Bósnia, numa reunião internacional da AIESEC, travei conhecimento directo com as marcas da guerra. Sem perigo de ataques, sem balas que nos pudessem passar ao lado, nesta ilusão de que só aos outros acontece, para onde quer que olhasse restavam as feridas, prédios cravejados de marcas que o tempo não apagava, bairros destruídos, vidas, aparentemente, descontextualizadas, pessoas como nós. No centro, uma cidade que procurava a normalidade. Uma reconstrução que procurava lavar a cara, mas que não conseguia sarar a dor.
Chegados ao aeroporto vários amigos, somos sempre todos amigos, esperavam por nós. Dali partimos para uma semana inesquecível entre Sarajevo e Neum. Dias felizes.
Nessa semana, já depois de uma noite de confraternização, regada com uns copos de cerveja – não é o futebol que une os povos -, fala-me da vida que teve. Somos da mesma idade, recordei. Tinha estado nas montanhas, escondido, armado, a proteger a vida, a lutar contra os seus. Por lá ficou, semanas, meses, uma vida, quis-me parecer. Quando tudo acabou não tinha nada. Perdeu-se na primeira tasca que encontrou, era outra vida, totalmente bêbado. Bebia para esquecer. Bebia na certeza de que pais e irmãos teriam perecido à lei da bala. Bebia sozinho. Bebia porque não tinha nada.
Passado uns tempos reencontrou-se, reencontrou também parte da família, recuperou a esperança e vivia, naquela altura, toda a ilusão que lhe era permitida. Estávamos como irmãos, separados por uma vida. Nada nos unia. Éramos um, mas nos olhos do outro não nos conseguíamos ver.
Perdi-lhe o rasto. A vida, por cá, continua com as insignificantes certezas de sempre. Que por lá persista a esperança e a luta por uma vida melhor. Pouco mais nos resta. A todos.