{"id":2633,"date":"2007-10-18T10:48:06","date_gmt":"2007-10-18T09:48:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/index.php\/2633\/2007\/10\/18\/anicca\/"},"modified":"2007-10-18T10:48:06","modified_gmt":"2007-10-18T09:48:06","slug":"anicca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/anicca\/","title":{"rendered":"anicca*"},"content":{"rendered":"<p>Pessoas normais, pensei. A beleza n\u00e3o surge na face das pessoas normais. \u00c9 preciso algu\u00e9m que, na escala, se encontre no<em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Outlier\">outlier<\/a><\/em> para que o conceito surja e nos prenda. A repulsa n\u00e3o \u00e9 beleza, mas tamb\u00e9m n\u00e3o surje em pessoas normais. Ali estava eu, pessoa normal, no meio de pessoas normais, a fazer o que as pessoas normais fazem no meio de pessoas normais: passar despercebido.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil imaginar a perfei\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o a ver ao nos cruzarmos com ela. Para as pessoas normais olhamos, mas n\u00e3o as vemos. A perfei\u00e7\u00e3o vemos sem precisar de olhar, olhamos e deixamos de a ver. Eu deixei. Trope\u00e7ar nos degraus nesse momento fez-me abrir os olhos para a realidade. Temos de nos distanciar da beleza.<\/p>\n<p>H\u00e1 segrega\u00e7\u00e3o total entre homens e mulheres em nove dos dez dias de medita\u00e7\u00e3o. Eu devo ser a raz\u00e3o para isso. A concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, por vezes imposs\u00edvel, e manter os olhos fechados por mais de dois minutos facilmente se torna numa eternidade. O tempo esvai-se na eternidade e tudo perde o seu sentido. Abro os olhos. Somos cinquenta e s\u00f3 eu de olhos abertos. Atento no rosto de medita\u00e7\u00e3o de alguns e penso que deve ser esse o segredo do amor. Temos de gostar desse rosto, do rosto de medita\u00e7\u00e3o da outra pessoa. S\u00f3 h\u00e1 um. Podemos ter v\u00e1rios sorrisos, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, &#8230;, podemos ter os mesmos v\u00e1rios olhares, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, &#8230;, mas s\u00f3 temos um rosto de medita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 alegria, tristeza, frustra\u00e7\u00e3o, medo ou paix\u00e3o que afecte esse semblante. \u00c9 o que de mais puro tem a nossa face. Ali era f\u00e1cil e a ningu\u00e9m precisava de pedir: da-me a tua melhor cara de medita\u00e7\u00e3o. A melhor, como se n\u00e3o soubesse.<\/p>\n<p>Ela tinha o melhor rosto de medita\u00e7\u00e3o. Minto. Ela tinha o melhor corpo de medita\u00e7\u00e3o. Eu tinha dores. Facilmente aprendemos que a desconcentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o facilita uma hora em <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Adhitthana\">adhitthana<\/a>, sem poder mexer pernas, m\u00e3os e sem abrir os olhos. Passei os dias sem lhe poder falar. Nove dias num esfor\u00e7o, muitas vezes ingl\u00f3rio, para me concentrar. Uma eternidade a fazer planos. No d\u00e9cimo dia, pensava. S\u00f3 isto. No d\u00e9cimo dia. Falar.<\/p>\n<p>Ao nono dia ela n\u00e3o apareceu e no d\u00e9cimo ningu\u00e9m lhe falou. <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anicca\"><em>Anicca<\/em><\/a>. Tudo \u00e9 impermanente.<\/p>\n<p>Ao meu filho, um dia que o tenha, n\u00e3o hei-de oferecer um baby blog, mas sim um <a href=\"http:\/\/edeuscriouamulher.blogspot.com\/\">blog de babes<\/a> e educ\u00e1-lo para que se nunca vier a compreender os mist\u00e9rios da beleza feminina os possa, pelo menos, suportar.<\/p>\n<p>* l\u00ea-se <em>\u00e1nitcha<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pessoas normais, pensei. A beleza n\u00e3o surge na face das pessoas normais. \u00c9 preciso algu\u00e9m que, na escala, se encontre nooutlier para que o conceito surja e nos prenda. A repulsa n\u00e3o \u00e9 beleza, mas tamb\u00e9m n\u00e3o surje em pessoas normais. 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