{"id":2576,"date":"2007-09-19T11:08:24","date_gmt":"2007-09-19T10:08:24","guid":{"rendered":"http:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/index.php\/2576\/2007\/09\/19\/darjeeling-tea\/"},"modified":"2007-09-19T11:08:24","modified_gmt":"2007-09-19T10:08:24","slug":"darjeeling-tea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/darjeeling-tea\/","title":{"rendered":"Darjeeling Tea"},"content":{"rendered":"<p>Sobre o \u00aborientalismo\u00bb, a terceira esfera de irracionalidade de George Steiner que surje no livro &#8220;Nostalgia do Absoluto&#8221;.<\/p>\n<blockquote><p><a rel=\"thumbnail\" href='http:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/wp-content\/uploads\/2007\/09\/george-steiner-nostalgia-do-absoluto.jpg' title='George Steiner - Nostalgia do Absoluto'><img align=\"right\" src='http:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/wp-content\/uploads\/2007\/09\/george-steiner-nostalgia-do-absoluto.thumbnail.jpg' alt='George Steiner - Nostalgia do Absoluto' \/><\/a>Os <em>hippies <\/em>dirigem-se para Katmandu. Os devotos escalpados do Hare Krishna, com as suas t\u00fanicas cor de a\u00e7afr\u00e3o, saltitam pela Broadway ou por Picadilly, agitando pandeiretas. A matrona e o empres\u00e1rio contemplam os seus corpos deliquescentes ao longo da l\u00fagubre dura\u00e7\u00e3o da aula de ioga. O pau de incenso que arde lentamente sob o p\u00f3ster da mandala, o sinal de paz tibetano, o tapete de ora\u00e7\u00f5es num apartamentozinho em Santa Monica ou Hammersmith. Na universidade de Bacon e Newton, de Darwin e Bertrand Russel, milhares de estudantes juntam-se aos p\u00e9s cal\u00e7ados de sald\u00e1lias do Maharishi. Meditamos; meditamos transcendentalmente; procuramos o Nirvana em transes suburbanos. Adolescentes sebosos descem at\u00e9 n\u00f3s via Air India, dizem ser o Caminho e a Luz, oferecem <em>clich\u00e9s <\/em>inef\u00e1veis sobre os poderes curativos do Amor, e espalham p\u00e9talas com dedos gorduchos. Enchemos o est\u00e1dio para ouvir a revela\u00e7\u00e3o que trazem. Vem-se a saber que eram saltimbancos manhosos, e especuladores monet\u00e1rios. Tal n\u00e3o reduz o brilho \u00e0 Luz e ao Tao. \u00abQue som faz uma s\u00f3 m\u00e3o a bater palmas?\u00bb, pergunta o mestre Zen. \u00abA estrela \u00e9 o L\u00f3tus; <em>ommani padme<\/em>&#8230;\u00bb, resmoneiam lamas em viagem tur\u00edstica. <em>Tanka <\/em>e <em>guru<\/em>, <em>haiku <\/em>e <em>dharma<\/em>; todas estas frioleiras iridescentes entraram no nosso discurso.<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o tanto estas superficialidades que importam; \u00e9 prov\u00e1vel que passem, como passou a coqueluche da <em>chinoiseries <\/em>na marcenaria do s\u00e9culo XVIII. O problema \u00e9 a idealiza\u00e7\u00e3o impl\u00edcita de valores estranhos, ou mesmo contr\u00e1rios, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o ocidental. Passividade contra for\u00e7a de vontade; uma teosofia de estatismo ou eterno retorno contra uma teodiceia de progresso hist\u00f3rico; a monotonia concentrada, chegando mesmo ao vazio, da medita\u00e7\u00e3o e do transe meditativo, opondo-se \u00e0 reflex\u00e3o l\u00f3gica e anal\u00edtica; ascetismo contra prodigalidade pessoal e expressiva; contempla\u00e7\u00e3o <em>versus <\/em>ac\u00e7\u00e3o; um erotismo polimorfo, ao mesmo tempo sensual e abnegado, em contraste com a sexualidade aquisitiva, mas tamb\u00e9m sacrificial, da heran\u00e7a judaico-hel\u00e9nica: s\u00e3o estes os termos da dial\u00e9ctica. O universit\u00e1rio que, enquanto manipula um ros\u00e1rio budista ou medita num enigma Zen, vai entrando num atordoamento melanc\u00f3lico, e o executivo fatigado que se apressa em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 sua aula de medita\u00e7\u00e3o ou prelec\u00e7\u00e3o sobre o <em>karma<\/em>, procuram ambos ingerir quantidades variadas de elementos, mais ou menos na moda e prontos a consumir, oriundos de culturas, rituais e disciplina filos\u00f3ficas que, na realidade, lhes s\u00e3o extremamente remotos, d\u00edspares, e de dif\u00edcil acesso. Mas est\u00e3o tamb\u00e9m, e isto \u00e9 mais importante, a articular uma cr\u00edtica consciente ou instintiva dos seus pr\u00f3prios valores, da sua identidade hist\u00f3rica. A viagem a Benares ou a Darjeeling \u00e9 uma tentativa de escaparmos \u00e0 sombra da nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o \u00aborientalismo\u00bb, a terceira esfera de irracionalidade de George Steiner que surje no livro &#8220;Nostalgia do Absoluto&#8221;. Os hippies dirigem-se para Katmandu. Os devotos escalpados do Hare Krishna, com as suas t\u00fanicas cor de a\u00e7afr\u00e3o, saltitam pela Broadway ou por Picadilly, agitando pandeiretas. 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