{"id":1435,"date":"2006-04-19T16:03:30","date_gmt":"2006-04-19T15:03:30","guid":{"rendered":"http:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/?p=1435"},"modified":"2006-04-19T16:22:51","modified_gmt":"2006-04-19T15:22:51","slug":"das-construcoes-e-desistencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/das-construcoes-e-desistencias\/","title":{"rendered":"&#8220;Das constru\u00e7\u00f5es e desist\u00eancias&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a id=\"p1436\" href=\"http:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/wp-content\/uploads\/2006\/04\/Chet%20Baker-Goodbye.mp3\"><\/a><br \/>\nA chuva acaricia a tarde. Outono rec\u00e9m-nascido na terra Dona Francisca. Alheio a tudo, um marimbondo constr\u00f3i sua casa. Traz nas patas m\u00ednimos tijolos. V\u00f4o a v\u00f4o, ergue sua habita\u00e7\u00e3o. O homem ampara-se um instante na seguran\u00e7a arquitet\u00f4nica do inseto. Sempre vislumbrou para si uma casa constru\u00edda palavra a palavra, sentimento a sentimento. Ele nunca teve o instinto da constru\u00e7\u00e3o presente no marimbondo, mas tinha vontade, tinha per\u00edcia com os sentires, alguma imagina\u00e7\u00e3o e muito suor para dar. Queria tanto erguer sua casa num espa\u00e7o que melhor lhe aprouvesse: podia ser sobre um ip\u00ea amarelo, pr\u00f3ximo do mangue, embaixo da cidade, dentro de si mesmo. O homem precisava de uma casa, da mesma forma que todas as crian\u00e7as precisam daquela casa sem porta e sem janela, sem teto, ch\u00e3o e parede. N\u00e3o sabe em que lugar do tempo ele errou. Em qual momento desistiu de construir a casa desejada e come\u00e7ou a arquitetar estas &#8220;quatro paredes s\u00f3lidas&#8221;. Esta pris\u00e3o de alvenaria imaginada, preenchida pelas vontades da mulher, dos filhos, da decoradora antenada com o que h\u00e1 de mais moderno em decora\u00e7\u00e3o.Ele agora \u00e9 um homem misturado entre as lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia, quando brincava de fazer caverna nos barrancos, castelos nos areais e a percep\u00e7\u00e3o da paci\u00eancia com que o inseto faz sua moradia no caibro da varanda. Dois mundos perdidos. As casinhas da inf\u00e2ncia esvaeceram, e logo a casa do marimbondo ser\u00e1 derrubada pelas m\u00e3os limpas da empregada. O homem sabe disso e chora. Pensa impedir, deixar uma ordem para que n\u00e3o desmanchem o trabalho do bicho. S\u00f3 que ele destruiu um desejo, se asilou nas dist\u00e2ncias da posi\u00e7\u00e3o social, das contas banc\u00e1rias e carros do ano, por que ent\u00e3o deixaria parte de sua varanda ser suja por um marimbondo construtor? Se n\u00e3o tem mais suas &#8220;quatro paredes m\u00e1gicas&#8221; n\u00e3o ser\u00e1 uma insignific\u00e2ncia qualquer que erguer\u00e1 morada frente a seus olhos.<\/p>\n<p>O homem se arrepende de tal pensar. Duelam nele o mundo externo, das apar\u00eancias, e o mundo interno feito de perdas, sonhos, derrotas m\u00ednimas, alegrias espa\u00e7adas, esperan\u00e7as. Uma guerra di\u00e1ria. Ele, sempre que poss\u00edvel, esquece, mas tem dias em que um simples olhar, um acontecimento desimportante leva-o \u00e0 exaspera\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se ele fosse um reservat\u00f3rio que vez em quando transborda. Hoje, foi um ato delicado da natureza. Um inseto e sua casa de barro agrediram a vida dele, dispuseram a sua frente mais delicadezas, mem\u00f3rias, intensidades do que pode ag\u00fcentar. Um marimbondo, numa tarde chuvosa de outono, deu ao homem a dimens\u00e3o das &#8220;quatro paredes fl\u00e1cidas&#8221; que o sustentam. O marimbondo, que nunca desiste enquanto n\u00e3o concluir aquilo a que foi destinado, ensinou ao homem que ele sempre foi feito de agonia inversa: a desist\u00eancia contumaz dos sonhos.<\/p>\n<p>Rubens da Cunha<\/p>\n<p>[<a href=\"http:\/\/serdespanto.blogspot.com\/\">Obrigado<\/a>]<br \/>\n[M\u00fasica: Chet Baker &#8211; Goodbye]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chuva acaricia a tarde. Outono rec\u00e9m-nascido na terra Dona Francisca. Alheio a tudo, um marimbondo constr\u00f3i sua casa. Traz nas patas m\u00ednimos tijolos. V\u00f4o a v\u00f4o, ergue sua habita\u00e7\u00e3o. O homem ampara-se um instante na seguran\u00e7a arquitet\u00f4nica do inseto. Sempre vislumbrou para si uma casa constru\u00edda palavra a palavra, sentimento a sentimento. 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