{"id":1278,"date":"2006-03-22T11:07:51","date_gmt":"2006-03-22T11:07:51","guid":{"rendered":"http:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/?p=1278"},"modified":"2006-03-22T11:07:51","modified_gmt":"2006-03-22T11:07:51","slug":"confissoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiago.pinhal.com\/blogue\/confissoes\/","title":{"rendered":"confiss\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><em>Querido Di\u00e1rio,<br \/>\nEu me confesso.<\/em><\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o no mundo dos di\u00e1rios surgiu com a blogosfera. Os mesmos di\u00e1rios que anteriormente eram protegidos por chave e cadeado s\u00e3o-no agora por heter\u00f3nimos, nicks, nomes an\u00f3nimos dos quais nunca vemos a face. Talvez a tenham perdido, penso. Vive-se observado pelo buraco da fechadura. Deixa-se espreitar quem passa sabendo que nunca d\u00e1 para perceber tudo, sabendo que d\u00e1 sempre para perceber alguma coisa, sabendo que nunca se perceber\u00e1 quem \u00e9, quem sou, quem somos. Mas continuam a ser di\u00e1rios. Um espa\u00e7o confessional onde se fala de tudo, de n\u00f3s, dos nossos problemas, dos nossos mais inconfess\u00e1veis, agora cada vez menos, dramas. <\/p>\n<p>Eu <del datetime=\"2006-03-22T10:49:59+00:00\">n\u00e3o<\/del> me confesso.<\/p>\n<p>O di\u00e1rio da blogosfera tem outras vantagens. O di\u00e1rio ganhou vida pr\u00f3pria. Se anteriormente escrev\u00edamos para <del datetime=\"2006-03-22T10:49:59+00:00\">as paredes<\/del> o di\u00e1rio, agora <del datetime=\"2006-03-22T10:49:59+00:00\">as paredes<\/del> o di\u00e1rio ganhou vida e responde-nos. Como \u00e9 bom poder ter algu\u00e9m a solidarizar-se com os nossos dramas. Como \u00e9 bom algu\u00e9m que chega e diz que nos percebe. Como \u00e9 bom perceber que os nossos dramas n\u00e3o s\u00e3o \u00fanicos e que h\u00e1 confiss\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 nossas. Ahhhh, bendito di\u00e1rio da era digital. Benditas paredes. Esquecem-se, contudo, as paredes que agora respondem, que os esfor\u00e7os de quem se descreve a si pr\u00f3prio <em>n\u00e3o devem ser mais do que aquilo que Montaigne lhes chamou: \u00abensaios\u00bb, tentativas<\/em> [<a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/gp\/product\/0679743758\/103-5157565-1510202?v=glance&#038;n=283155\">The Creators<\/a>]. \u00c9 muito dif\u00edcil dizer a verdade, muito mais dif\u00edcil dizer toda a verdade, ainda mais dif\u00edcil dizer nada mais sen\u00e3o a verdade. A verdade nunca \u00e9 nossa, nunca nos pertence.<\/p>\n<p>Eu me confesso, diria algu\u00e9m. Eu n\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o consta que Rousseau tivesse come\u00e7ado desta forma as suas confiss\u00f5es, n\u00e3o come\u00e7ou, mas confessou-se acossado pela loucura. Ser\u00e1 a \u00fanica forma de nos confessarmos, em momentos de lucidez quando cercados pela loucura? Falo por mim, poucas s\u00e3o as confiss\u00f5es que poderia fazer e que s\u00e3o s\u00f3 minhas. Se algumas fizer, algum dia, ser\u00e3o s\u00f3 essas. Das outras n\u00e3o me compete e n\u00e3o tenho esse direito. Por enquanto. H\u00e1 quem diga que os direitos adquirem-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o consta que Rousseau tivesse um blogue, n\u00e3o tinha, mas, por n\u00e3o querer escrever para as paredes, ou por qualquer outra raz\u00e3o que n\u00e3o vem muito ao caso, fazia leituras das mesmas. Questiono-me se nos momentos de lucidez ou nos momentos de loucura. As confiss\u00f5es de Rousseau n\u00e3o tinham leitores, tinham ouvintes. As confiss\u00f5es de Rousseau tinham, acima de tudo, uma cara. As confiss\u00f5es de Rousseau tinham a cara de quem as lia. Era a loucura?<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o sou feito como nenhum dos que tenho visto; ouso crer que n\u00e3o sou feito como nenhum dos que existem. Se n\u00e3o valho mais, sou pelo menos diferente. (Jean-Jacques Rousseau &#8211; Confiss\u00f5es)<\/p><\/blockquote>\n<p>Eu n\u00e3o me confesso. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Querido Di\u00e1rio, Eu me confesso. A revolu\u00e7\u00e3o no mundo dos di\u00e1rios surgiu com a blogosfera. Os mesmos di\u00e1rios que anteriormente eram protegidos por chave e cadeado s\u00e3o-no agora por heter\u00f3nimos, nicks, nomes an\u00f3nimos dos quais nunca vemos a face. Talvez a tenham perdido, penso. Vive-se observado pelo buraco da fechadura. 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