Acordo. Enquanto espero a força necessária para me arrastar até ao banho, descubro A Ideia de Europa de George Steiner. Decido começar pelo fim. O mesmo será dizer que começo por ler George Steiner. Não fui ao debate, mas o livro chegou-me às mãos e não foi pelo prefácio. Começo pelo fim e
Passo a manhã no café. No Flore, por exemplo, ali mesmo ao lado do Deux Magots. Por lá, num dos dois, onde quer que estejamos, ainda se vive um pouco de Sartre, Hemingway, Simone de Beauvoir ou Camus. Steiner escreve que
A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo.
Há uma semana estava no Flore. Hoje regressei. Quando fui a Paris levei esse objectivo. Sem ter lido Steiner tinha o desejo simples de passar uma tarde sentado na esplanada de um qualquer café do Quartier Latin. Ou perto. Estive quase a regressar sem o objectivo cumprido. Percebi que não tinha destino.
vai ao café flore, disse-me a Sissi. o albert cossery, escritor que venero, vive lá perto. Pois deve viver. Ia jurar que nos cruzámos no Flore. Parece que o ouvi dizer
Si je n’ai rien à dire, alors je n’écris pas
Disse mais. Não consta que tenha um blogue.
Bebo mais um copo de vinho enquanto procuro os olhos de quem passa. Hoje janto no Ângelus.
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Depois de ontem, hoje, depois de a SIC ter passado por Marrocos, algures no Bairro Alto, a RTP traz-me uma vila de amêijoas, em Olhão, Ria Formosa. Ao mesmo tempo dou mais um trago, (de) um só trago, no Planalto, vinho branco seco do Douro que acompanha o jantar, Tartiflette, que cozinhei, só, para mim. Estou sozinho. Hoje não preciso de mais.
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Nunca falta, nestes dias.
Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos –
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza
ETC. – Herberto Helder
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Não há outra forma de viajar se não for com tempo. De que outra forma poderemos sentir o pulsar de alguém, de alguma coisa que seja? Sem tempo podemos fazer muita coisa, mas não viajamos, não sentimos. Sem tempo podemos correr. Atrás do prejuízo? É preciso tempo para conseguirmos viver o tempo dos outros. Precisamos do nosso tempo. Viajar acompanhado tem o desafio de equilibrarmos o nosso tempo ao de quem nos companha e ainda tentarmos viver o tempo de quem visitamos, do que visitamos. Com que compasso? Por isso, sozinho, sozinhos. Sozinhos deixamos de ter tempo próprio e passamos a ter tempo para tudo. Sozinho deixo-me perder. O tempo deixa de ser nosso, não é meu.
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talvez a diferença entre viajar no tempo e viajar com tempo.
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– Dá-me um pouco mais de ti
– Que queres?
– Um beijo ao primeiro olhar
– Não estarás a pedir demais?
– Não peço senão o que desejo.
– E então?
– Atreves-te a pedir menos do que o que desejas?
– Não.
– Atreves-te a desejar menos do que o que sonhas?
– Não.
– Sonho com um beijo ao primeiro olhar.
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Quero a vida num só dia. Nem sempre, mas, às vezes, acontece. A vida define-se em momentos, não precisa sequer de uma dia inteiro, mas que num dia tanto acontecesse como se uma vida tivesse passado. O dia seguinte seria um renascimento.
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Foi como se nunca tivesse saído daqui. Hoje em dia podemos ir ao fim do mundo e sem que ninguém dê por isso.
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não te procuro, mas desejo-te
aprendo a gostar de ti
conheço-te
nunca te vi
não sei quem és
desejo-te como és
desejo-te, mas nao sei
como te encontrar
sei que te quero
como te desenhei
igual a ti mesma
desejo-te como és
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