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(…)

Por razões diferentes, não me recordo de alguma vez ter comprado laranjas ou nêsperas. Laranjas sempre tive à porta de minha casa e o meu vizinho sempre teve nêsperas.

Vou à farmácia e, depois de medir a tensão, dizem-me que estou a morrer.

Entre perguntar se tem algum medicamento que resolva esse problema de vez, o da morte, e que curso lhe permitiu tirar tão brilhante conclusão escolho regressar à esplanada e beber mais um café. Cafezinho, como disse o chefe.

As mulheres não gostam de parecer fáceis.

Depois de uma agradável tarde de conversa com uma amiga de uma amiga para falar de negócios, verdade seja dita, em que aos poucos começámos a falar de tudo até ao ponto em que deixámos de estar ali, sentados e com o café frio que nos esquecêramos de beber, para falar de negócios, depois dessa tarde, como estava a escrever, enviei-lhe, no pombo-correio do séx. XXI, uma mensagem.

“Gostava de passar mais tempo de qualidade contigo. Gostei de te conhecer. Jantar?”

Não respondeu. Amigas versadas no assunto dizem que “agora vai haver um concílio, no qual as amigas vao decidir a resposta a dar!!” e acrescentam que “Ela nao respondeu pq nao quer parecer facil ;)”

Eu continuo a não pôr de lado a hipótese de ela não ter respondido por a conversa não ter sido assim tão boa, por ter namorado, talvez, e muito mais para fazer do que responder aos avanços de um amigo de uma amiga de quem ela nem sequer gosta muito.

As mulheres não gostam de parecer fáceis. Reitero. Independentemente da razão pela qual ela não respondeu. As mulheres, portuguesas, não gostam de parecer fáceis. Corrijo. É como se não houvesse crime maior.

Um amigo diz que, em relação às mulheres, Portugal é o Afeganistão da Europa. Na noite, em Portugal, não se pode meter conversa com uma rapariga sem sermos olhados de soslaio e ostensivamente ignorados. Se tivermos sorte. Um bocadinho de azar e estamos rodeados dos amigos protectores da sua santa candura. E que santas que elas são.

Felizmente temos Espanha e o resto da Europa aqui tão perto. Felizmente, e dou graças por isso, o mundo é suficientemente grande para mim e para as mulheres portuguesas.



Como se não fosse de Lisboa. Não sou, na verdade, mas, ao fim de alguns anos, é como se nunca tivesse conhecido outra cidade. Conheço, mas em Lisboa sinto-me em casa. Gosto do Tejo.

O primeiro amor, esse mesmo, o primeiro, só deve ter um de dois destinos: viver perpetuamente ou desaparecer como se nunca tivesse existido.

Não sei se há uma altura certa ara procurar o primeiro amor. Se aos 30, como eu, se aos 50, como Passmore, uma das personagens de David Lodge. Seja em que altura for, um primeiro amor tem de ser procurado. O primeiro amor tem de ser desmistificado.

o beijo

– Dá-me um pouco mais de ti
– Que queres?
– Um beijo ao primeiro olhar
– Não estarás a pedir demais?
– Não peço senão o que desejo.
– E então?
– Atreves-te a pedir menos do que o que desejas?
– Não.
– Atreves-te a desejar menos do que o que sonhas?
– Não.
– Sonho com um beijo ao primeiro olhar.

24h

Quero a vida num só dia. Nem sempre, mas, às vezes, acontece. A vida define-se em momentos, não precisa sequer de uma dia inteiro, mas que num dia tanto acontecesse como se uma vida tivesse passado. O dia seguinte seria um renascimento.

Foi como se nunca tivesse saído daqui. Hoje em dia podemos ir ao fim do mundo e sem que ninguém dê por isso.

não te procuro, mas desejo-te
aprendo a gostar de ti
conheço-te
nunca te vi
não sei quem és

desejo-te como és

desejo-te, mas nao sei
como te encontrar
sei que te quero
como te desenhei
igual a ti mesma

desejo-te como és

Merche Romero
Merche Romero
bom toque de bola

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