sexta-feira
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Sexta-feira, noite de desenganos. Como uma manta de retalhos colo os vários momentos sem saber que fazer aos hiatos que nem sei onde procurar. Há lacunas que sei que não quero encontrar. São esses os desenganos. Noite longas têm esse problema: muita coisa acontece e muito acaba por ficar como se um sonho tivesse sido.
Nunca me recordo dos sonhos. Momentos há em que vivo como se tivesse sonhado, mas raramente sonho como se tivesse vivido. Caminho no limbo remelgado da certeza e do desengano, da verdade da consciência, dessa mentira que queremos como nossa, verdadeira. Nunca sei quando acordo nem sei em que altura adormeci. Sei que foi uma noite de desenganos. Não há que enganar.
(…)
A noite acabou algures em Lisboa, na Cachupa, para os lados do incógnito, ali entre o primeiro e o último andar de uma escadaria que já deve ter visto melhores noites. Lembro-me dela como há dez anos, a primeira vez que lá fui. A noite acabou quando já era dia e já não era sexta feira. Era outro dia, mas ainda não tinha acordado. Talvez o maior desengano. Ainda todos os gatos estavam pardos, toda a verdade era mentira.
Não foi um sonho.